Mas eu acreditei, cega e inutilmente, que te conhecia. Não foram os anos que fizeram as coisas serem assim. Bastou tão pouco pra eu chegar a essa conclusão. Às vezes, eu ainda sinto o mesmo crepitar na alma quando escuto uma música. Ridículo, eu sei, mas seu cheiro ainda está entre as páginas do livro. Desviei tantas vezes o caminho depois que acabou. Mas eu tentei, juro que dei o máximo de mim para manter uma convivência amigável, um laço frágil, mas permissível entre nós. Eu te conhecia, juro. Sentada naquele banco, eu tinha essa certeza nas mãos, era ela meu refúgio, meu consolo pras noites de insônia. E nem sequer por um momento você me fez duvidar disso. Mas acabou, não foi?! Morreu. Você destruiu minha certeza com todo o seu sarcasmo, eu vi toda a crueldade escondida em seus olhos, como o caçador que nocauteia a presa, naquela tarde vazia em que nada mais fazia sentido. Foi como a grande revelação, como se a escuridão que me cercava fosse arrancada, me expondo à luz, queimando a verdade nos meus olhos. Mas eu pensei, eu cheguei a afirmar com convicção. Não te conhecia. Nem vou conhecer. Nunca mais. Melhor assim.
