Foi mais uma daquelas conversas que costumo ter com
Deus, no fim da tarde. Duro não é partir. Duro é saber que a dor só fere aquele
que fica. Quando conseguimos partir, subjugamos o estágio do desapego, seguimos
em frente, com a bagagem cheia do que já vivemos e a esperança do que nos
guarda adiante. Mas nem sempre partimos ao mesmo tempo. Muitas vezes as
despedidas ocorrem em estágios diferentes pros mesmos envolvidos na trama. Não
é atoa ouvirmos que fulano vive de passado. Despedir-se é morrer em si e nascer
de novo. É não ficar mais, seguir adiante mesmo sem um motivo lúdico. Dói mais
naquele que fica, pois vive o passado muitas vezes. Não sei o que machuca mais,
Deus, ferir-se com a verdade, ou com a partida. A verdade nos remete ao humano
e mesquinho, à realidade que mais aparenta ficção, coisa de novela,
dramaturgia. Ficar é morrer em si, dia após incansável dia, desbotar a vida na
ponta dos dedos enquanto espera vagamente as coisas voltarem, ou os passos seguirem.
Contei anos desde a última partida, não sei bem onde me encontro nessa
caminhada, Deus. Porque eu fiquei, e me perdi muitas vezes. Não sei se a
verdade que me bateu à porta mais tarde tratou de me guiar pro caminho certo,
mas cá estou eu, me curando da dor de ter ficado. A mente humana é ardilosa, a
alma, traiçoeira. O sorriso é a melhor arma e a palavra, a mais lacerante. E foi
por tudo isso que o passado me engoliu em arrependimento. Porque não pude
voltar e desfazer a tempo. Tive que me habituar a muita coisa, desacostumar de
muita gente, tratar de dor que não era minha, mas me foi designada. Em dias
assim, Deus, que minha inutilidade humana pesa sobre os ombros, o passado
também se recosta. Abre outro abismo no peito. Dói porque fica muito dos outros
pra eu dar conta sozinha. E pior é constatar, depois disso tudo, que aquele que
parte leva consigo boa parte de mim, Deus, e sem permissão.
