Então,
os anos me engoliram ou eu envelheci de verdade?! Lembro como se ontem fosse,
janeiro de chuva, calçadas alagadas e barquinhos folhados seguindo em caravana
na rua. Lembro o cheiro inconfundível quando a serra se escondia num véu de nuvens.
O sabor inigualável do bolo saindo do forno, da minha gula frenética pelo doce
de leite ainda na panela. Andar de bicicleta pelo calçadão, traquinagens de uma
infância comedida e interiorana. E hoje, por coincidência ou atrevimento, esse
passado me pesou nas costas. Acordo pedindo que o dia acabe. Chega de
obrigações, horários cumpridos, contas pra pagar, casa limpa, mesa feita, chega
de bancar gente grande quando o que eu mais quero é ser a mesma que passava
horas e horas escrevendo versinhos enquanto a chuva caía lá fora. Eu só quero
poder ir dormir às 19 horas. Não tinha esse sentimento de responsabilidade, nem
essa amargura doce pela vida, nem o ar cansado, o sorriso vago. Não chorava com
música, nem precisava de remédios pra insônia. Não precisava dar satisfações ou
pedir desculpas pelas coisas que nem fiz. Nunca desejei tanto não saber de
nada. E todas as noites, antes de dormir, é o poeta quem me visita, só pra
lembrar: “a ignorância é uma virtude”.
A gente só enxerga isso bem tarde.
