quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Quando parece que vai chover.


    Então, os anos me engoliram ou eu envelheci de verdade?! Lembro como se ontem fosse, janeiro de chuva, calçadas alagadas e barquinhos folhados seguindo em caravana na rua. Lembro o cheiro inconfundível quando a serra se escondia num véu de nuvens. O sabor inigualável do bolo saindo do forno, da minha gula frenética pelo doce de leite ainda na panela. Andar de bicicleta pelo calçadão, traquinagens de uma infância comedida e interiorana. E hoje, por coincidência ou atrevimento, esse passado me pesou nas costas. Acordo pedindo que o dia acabe. Chega de obrigações, horários cumpridos, contas pra pagar, casa limpa, mesa feita, chega de bancar gente grande quando o que eu mais quero é ser a mesma que passava horas e horas escrevendo versinhos enquanto a chuva caía lá fora. Eu só quero poder ir dormir às 19 horas. Não tinha esse sentimento de responsabilidade, nem essa amargura doce pela vida, nem o ar cansado, o sorriso vago. Não chorava com música, nem precisava de remédios pra insônia. Não precisava dar satisfações ou pedir desculpas pelas coisas que nem fiz. Nunca desejei tanto não saber de nada. E todas as noites, antes de dormir, é o poeta quem me visita, só pra lembrar: “a ignorância é uma virtude”. A gente só enxerga isso bem tarde.