Por isso, Zé, por isso eu lhe digo. Não tenho medo da morte, mas da forma como vou morrer. A vida é muito fraca, insignificantemente atingível e abalável. A humanidade até que é boa, mas eu confesso que alguns humanos não fazem por merecer a vida. Eu não consigo, Zé, não consigo acreditar que caiba tanta crueldade numa cabeça tão pequena, que essa maldade controle assim um indivíduo, e leve-o a fazer o que faz. A miséria no mundo é grande. A prepotência e a arrogância saltam os olhos, os corpos, massacram almas e atropelam ideias. Sonhos são apagados nas avenidas e calçadas. Planos se perdem com balas. Zé, o mundo parou de sentir. O mundo está cego, ou fechou os olhos, não quer mais enxergar. Porque não aceita ver escorrer pelas esquinas tanta mesquinharia, submissão, poder, opressão. Pior, Zé, lhe parece insignificante a perda. O que eu tenho sentido é que a vida nos é roubada com muito mais presteza e exatidão, sem tempo de despedida, sem último abraço, última risada. Tenho medo, Zé, temo pelos meus, todos os dias, ao sair de casa. Peço em pensamento que a volta lhes seja permitida, da melhor maneira possível. As pessoas me assustam, o mundo me sufoca, Zé, entrego minha liberdade a uma prisão intelectual e humana. Evito ao máximo por a cabeça do lado de fora. Não sei mais em quem confiar, e no que me apegar. O mal não escolhe tempo certo. Não permite segunda chance. Chega e se apodera de tudo, só nos permite a lembrança, mas essa ninguém nos toma, não é Zé?! Se aloja em algum canto, acredito eu, entre a pele e a alma, não cabe sequestro, roubo, usurpação. A maldade nos leva tudo, nos deixa os cacos de incredulidade e desalento, nos faz julgar o inaceitável e inexplicável. Saudade dói demais, Zé, dói sem fazer sentido, não se sabe ao certo onde, nem o que fazer pra passar, e eu não quero essa dor pra mim, nem pros meus. É desumano, veja só, o homem é capaz de acolher o mal, mas não aceita a dor da saudade! Diz que é desumana, me diga, Zé, quem entende?! É uma maré de contradição, não aguento isso também. Apego-me a uma fé pueril que ainda possuo, resquícios de uma vida contada nos dedos, amparada em cantos e ladainhas. Eu quero um mundo melhor, Zé, pra mim e pra muitos, mas se não posso ter isso, quero ao menos viver por bem o que me for permitido.
