E foi por tudo isso, Zé. Tudo o que te contei sobre amores e cigarros. A gente terminou, mas nunca acaba. Não acaba, nunca acaba, sempre fica, Zé. Fica no armário, dentro do livro preferido. Daquela leitura alternativa que nem faz o seu tipo, mas você aceitou de bom grado e sentiu-se até feliz por ser lembrada. Fica na gaveta, escondido em meio aos cartões postais e cartinhas de aniversário. Nas já desbotas e mortas pétalas, tão sem vida como tudo ficou depois que terminou. Ficam as músicas que rebentam memórias com o primeiro acorde, como se a onda trouxesse pra perto tudo o que a ressaca do mar levou. Ficam os programas de TV, agora impossíveis de serem vistos. E até o correio eletrônico, Zé. Ficam todos os traumas e assombros que me causam insônia vez ou outra. Ficou todo o desastre emocional que sempre termina com um talvez. E talvez tantas coisas, Zé, que ficam martelando e transformam nossas vidas à custa de sentimentos bobos versus mesquinhos. Por isso acabou. A gente se esforça, Zé, esconde tudo, deixa guardado pra esquecer, se esquece de lembrar, mas aí, eles vêm à tona, não tem jeito, podem passar dias ou anos. A gente tenta não lembrar o tempo todo, mas não há um meio certo de fazer esquecer, será que ao menos você me entende, Zé?
