sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Sabe lá.




        Foi-se o tempo, Maria, essa história que a vizinha nos contou mais cedo não tem nada de verdade. Acha mesmo possível o duque de “sabe Deus onde” aparecer assim e arrebatar o coração de sua filha?! Acorda menina, no mínimo isso é golpe, hoje em dia tem doido pra tudo. Não vê o que se passa com a Aninha do 102? Coitada, o marido a trocou pela Lúcia do 04, dizem até que foram passar as férias em Paris! E a Aninha?! Desamada, desatou de um jeito, que foi pedir consolo no barzinho da esquina, me disseram outro dia que anda enrabichada com o garçom. Coitada?! De coitado ninguém tem mais é nada, Maria. Nem você, nem eu. Não me venha com seu romancismo de quinta e seu ideal de alma gêmea, ninguém encontra uma cópia avulsa pra te completar. Somos todos alheios, Maria, de nós e dos outros. Mais espertos são os que despertaram cedo pra isso. Mas não mais sábios que os outros. As vezes, Maria, mais vale sofrer com a cura (quem diria!) que não sofrer e não curar. Vê se me entende bem: sabe as feridas que nunca saram?! Que não existe antisséptico potente o suficiente pra evitar a infecção?! Que não adianta soprarmos pra abafar a dor?! Pois é, Maria, essas são as que nos fazem fortes de mundo, e fracas de nós mesmos. Quando nos deixamos infectar pelo mal que nos causaram, criamos resistência a eles. Hoje nos dói, amanhã nos ensina. Bem lá na frente percebemos que nada fora tão sério assim como pareceu no começo. Ninguém é tão amigo, tão amado, tão querido no fim das contas. Maiores são as expectativas implantadas em nossas vidas. Vemos, ouvimos, nos encantamos e começamos a construir furtivamente. Uma curta mudança no percurso e percebemos o que não saltava aos olhos. Conhecemos.  Admitimos que não era mesmo aquilo o que se via e se queria. Desiludimos. Curamos os males dos outros, e ficamos infectados de seus males. Veja bem, ninguém quer uma segunda chance pra sofrer, ninguém arrisca ao ponto de lhe doer a alma, me entende?! O duque é de mentira, Maria, mais vale a história da Aninha, encontrou alegria entre bandejas e rodadas de cerveja, curou sua infecção com doses etílicas e risos embriagados de nostalgia.