Foi-se o tempo, Maria, essa
história que a vizinha nos contou mais cedo não tem nada de verdade. Acha mesmo
possível o duque de “sabe Deus onde” aparecer assim e arrebatar o coração de
sua filha?! Acorda menina, no mínimo isso é golpe, hoje em dia tem doido pra
tudo. Não vê o que se passa com a Aninha do 102? Coitada, o marido a trocou
pela Lúcia do 04, dizem até que foram passar as férias em Paris! E a Aninha?!
Desamada, desatou de um jeito, que foi pedir consolo no barzinho da esquina, me
disseram outro dia que anda enrabichada com o garçom. Coitada?! De coitado
ninguém tem mais é nada, Maria. Nem você, nem eu. Não me venha com seu
romancismo de quinta e seu ideal de alma gêmea, ninguém encontra uma cópia
avulsa pra te completar. Somos todos alheios, Maria, de nós e dos outros. Mais
espertos são os que despertaram cedo pra isso. Mas não mais sábios que os
outros. As vezes, Maria, mais vale sofrer com a cura (quem diria!) que não
sofrer e não curar. Vê se me entende bem: sabe as feridas que nunca saram?! Que
não existe antisséptico potente o suficiente pra evitar a infecção?! Que não
adianta soprarmos pra abafar a dor?! Pois é, Maria, essas são as que nos fazem
fortes de mundo, e fracas de nós mesmos. Quando nos deixamos infectar pelo mal
que nos causaram, criamos resistência a eles. Hoje nos dói, amanhã nos ensina.
Bem lá na frente percebemos que nada fora tão sério assim como pareceu no
começo. Ninguém é tão amigo, tão amado, tão querido no fim das contas. Maiores
são as expectativas implantadas em nossas vidas. Vemos, ouvimos, nos encantamos
e começamos a construir furtivamente. Uma curta mudança no percurso e
percebemos o que não saltava aos olhos. Conhecemos. Admitimos que não era mesmo aquilo o que se
via e se queria. Desiludimos. Curamos os males dos outros, e ficamos infectados
de seus males. Veja bem, ninguém quer uma segunda chance pra sofrer, ninguém
arrisca ao ponto de lhe doer a alma, me entende?! O duque é de mentira, Maria,
mais vale a história da Aninha, encontrou alegria entre bandejas e rodadas de
cerveja, curou sua infecção com doses etílicas e risos embriagados de nostalgia.
