sábado, 15 de setembro de 2012

No fim das contas.



         E foi assim nosso adeus, Zé, naquela tarde fria de setembro, em que eu pensei ser o fim de tudo o que eu tinha chegado a sonhar. Era o começo, só bem mais tarde percebi isso. Ainda lembro, como se fosse hoje, a depressão maltrapilha que me acometeu. Já nem me recordo quantas vezes matei a mim mesma em pensamento, por medo, Zé, medo, veja só, de perder aquele amor que em mim fez morada. Ah, Zé, chorava como se do céu as torneiras tivessem quebrado, perdi o apetite, definhei em um ser sem vida, vivendo às custas do acaso. Me disseram uma vez que o amor em si já é uma loucura, por isso não me atrevi mais a cometê-lo. Nunca mais amei, Zé, nem enlouqueci. E hoje vejo, depois de quase doze anos, o quanto amar teve efeito em mim. P.J. Não é meu grande amor, mas o marido perfeito, pai incrível e exemplo de homem. O que eu poderia querer mais? Outro dia, enquanto fazíamos nossa caminhada matinal pelo parque, vi o que, por um segundo, pensei ser uma visão do além. Aquele amor de jeito contido e sorriso malandro vinha em nossa direção, me olhou meio torto, como quem buscava lá no fundo da memória encontrar alguém. Não encontrou, não me reconheceu. Aliás, para ser mais franca, nunca me conheceu ou, talvez, nunca tenha chegado a querer isso. E eu, Zé, segui minha caminhada. Mantive o sorriso no rosto e a satisfação na alma durante todo o dia. O amor é louco, Zé, leva ao fim sem nem mesmo ter começado. Aconselho sempre quem me diz achar que está amando a refletir por este ponto: imagine-se daqui a vinte anos, sem ele. Você pode até dizer que não enxerga isso, mas a vida vai nos apontando a cada dia as ausências e presenças desse amor. Não ame por falta de opção. Ame com a certeza de que é uma loucura sã. A partir do momento em que nos sentimos menos do que realmente somos, é hora de pular do trem. Pule enquanto há tempo. Não se prive de uma caminhada de mãos dadas no parque pelo simples fato de não querer renunciar a um possível amor. Possibilidades são sempre muitas, estão todas aí. Verdades e certezas, a gente só as enxerga lá na frente. E foi assim que eu comecei, Zé. Depois que conheci meu fim, vivi meu melhor começo.