E foi assim nosso adeus, Zé,
naquela tarde fria de setembro, em que eu pensei ser o fim de tudo o que eu
tinha chegado a sonhar. Era o começo, só bem mais tarde percebi isso. Ainda
lembro, como se fosse hoje, a depressão maltrapilha que me acometeu. Já nem me
recordo quantas vezes matei a mim mesma em pensamento, por medo, Zé, medo, veja
só, de perder aquele amor que em mim fez morada. Ah, Zé, chorava como se do céu
as torneiras tivessem quebrado, perdi o apetite, definhei em um ser sem vida,
vivendo às custas do acaso. Me disseram uma vez que o amor em si já é uma
loucura, por isso não me atrevi mais a cometê-lo. Nunca mais amei, Zé, nem
enlouqueci. E hoje vejo, depois de quase doze anos, o quanto amar teve efeito
em mim. P.J. Não é meu grande amor, mas o marido perfeito, pai incrível e
exemplo de homem. O que eu poderia querer mais? Outro dia, enquanto fazíamos
nossa caminhada matinal pelo parque, vi o que, por um segundo, pensei ser uma
visão do além. Aquele amor de jeito contido e sorriso malandro vinha em nossa
direção, me olhou meio torto, como quem buscava lá no fundo da memória
encontrar alguém. Não encontrou, não me reconheceu. Aliás, para ser mais
franca, nunca me conheceu ou, talvez, nunca tenha chegado a querer isso. E eu,
Zé, segui minha caminhada. Mantive o sorriso no rosto e a satisfação na alma
durante todo o dia. O amor é louco, Zé, leva ao fim sem nem mesmo ter começado.
Aconselho sempre quem me diz achar que está amando a refletir por este ponto:
imagine-se daqui a vinte anos, sem ele. Você pode até dizer que não enxerga
isso, mas a vida vai nos apontando a cada dia as ausências e presenças desse
amor. Não ame por falta de opção. Ame com a certeza de que é uma loucura sã. A
partir do momento em que nos sentimos menos do que realmente somos, é hora de
pular do trem. Pule enquanto há tempo. Não se prive de uma caminhada de mãos
dadas no parque pelo simples fato de não querer renunciar a um possível amor.
Possibilidades são sempre muitas, estão todas aí. Verdades e certezas, a gente
só as enxerga lá na frente. E foi assim que eu comecei, Zé. Depois que conheci
meu fim, vivi meu melhor começo.
