terça-feira, 4 de setembro de 2012

Estamos cá, dentro de nós, sós.



    Mas não, Zé, o amor não é cego ou surdo. Escolhe o que vê. Cada um enxerga sua realidade como quer, mesmo existindo uma outra diferente de tudo o que é pensado. É mais ou menos assim, Zé.  Um dia qualquer de outono, você atravessa a rua e percebe ao acaso o jornaleiro na esquina. Todos os dias ele está lá, mas hoje, indescritivelmente, o castanho dos seus cachos parece mais brilhoso e o azul furto dos seus olhos te rouba sem piedade. Aquele sorriso simpático é como uma alta dose etílica inebriando sua mente. A partir de agora você deixará um rastro de tantas vezes subir e descer aquela rua, só pra sentir o gostinho de mais uma dose louca dessa atração. A professora de inglês. O garotinho não queria de forma alguma ir pra aula, até conhecer a ‘Senhorita Alguma Coisa’ e ficar extasiado com seu sorriso materno e cabelo esvoaçante.  Ele fica imaginando o quanto o nome dela ficará bonito com o seu sobrenome. Tudo bem, o ano vai passar e ele não vai aprender nada além do verbo ‘to be’, mas aquele amor de colegial talvez chegue a ser o único verdadeiro ao longo de sua vida. Veja bem, Zé, o que eu quero te mostrar não é nada desse romantismo fosco e exacerbado de adolescente. É apenas a forma como cada um deles lidou com isso. Você pode amar tantas vezes quantas forem possíveis, e nunca será da mesma forma. E, talvez, no fim das contas, você tenha a glória de perceber o quanto o “amor” lhe cegou diante das circunstâncias da vida. Não existem balões, passeio de mãos dadas, crianças sorridentes, delicadeza e doçura. As grandes histórias de amor passam pelos maiores perrengues. O príncipe encantado está longe de chegar num cavalo branco e despertar alguém com o beijo. A princesa tem, pelo menos uma vez no mês, crises de histeria e uma TPM de abalar qualquer conto de fadas. Sejamos realistas, Zé, o amor é uma droga mesmo e não há pílula homeopática que mude essa situação. A gente só disfarça a verdade dentro de si pra ver se, com o tempo ou uma mentira, ela muda de uma vez por todas.    

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