Mas não, Zé, o amor não é cego ou
surdo. Escolhe o que vê. Cada um enxerga sua realidade como quer, mesmo existindo
uma outra diferente de tudo o que é pensado. É mais ou menos assim, Zé. Um dia qualquer de outono, você atravessa a
rua e percebe ao acaso o jornaleiro na esquina. Todos os dias ele está lá, mas
hoje, indescritivelmente, o castanho dos seus cachos parece mais brilhoso e o
azul furto dos seus olhos te rouba sem piedade. Aquele sorriso simpático é como
uma alta dose etílica inebriando sua mente. A partir de agora você deixará um
rastro de tantas vezes subir e descer aquela rua, só pra sentir o gostinho de
mais uma dose louca dessa atração. A professora de inglês. O garotinho não
queria de forma alguma ir pra aula, até conhecer a ‘Senhorita Alguma Coisa’ e
ficar extasiado com seu sorriso materno e cabelo esvoaçante. Ele fica imaginando o quanto o nome dela
ficará bonito com o seu sobrenome. Tudo bem, o ano vai passar e ele não vai
aprender nada além do verbo ‘to be’,
mas aquele amor de colegial talvez chegue a ser o único verdadeiro ao longo de
sua vida. Veja bem, Zé, o que eu quero te mostrar não é nada desse romantismo
fosco e exacerbado de adolescente. É apenas a forma como cada um deles lidou
com isso. Você pode amar tantas vezes quantas forem possíveis, e nunca será da
mesma forma. E, talvez, no fim das contas, você tenha a glória de perceber o
quanto o “amor” lhe cegou diante das circunstâncias da vida. Não existem
balões, passeio de mãos dadas, crianças sorridentes, delicadeza e doçura. As
grandes histórias de amor passam pelos maiores perrengues. O príncipe encantado
está longe de chegar num cavalo branco e despertar alguém com o beijo. A
princesa tem, pelo menos uma vez no mês, crises de histeria e uma TPM de abalar
qualquer conto de fadas. Sejamos realistas, Zé, o amor é uma droga mesmo e não há
pílula homeopática que mude essa situação. A gente só disfarça a verdade dentro
de si pra ver se, com o tempo ou uma mentira, ela muda de uma vez por todas.

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