Veja bem, é mais um daqueles
casos de amor mal resolvido. Ela tinha tudo o que precisava, mas aí veio essa
história de que bom mesmo é ser dois em um, e acabou por se engraçar do mais
torto da vizinhança. Ainda me lembro como hoje, na tarde costumeira de
novembro, sentados à sombra da macieira, admirados em meio as olhadelas da
fofoqueira da rua, do açougueiro, do menino que brincava de carrinho de rolimã.
E a cena, que era típica se tornou escassa, vieram os dias, as madrugadas.
Rosamaria, como era chamada, perdeu o tom corado da pele, o brilho luzente dos
olhos, a cor madura dos cabelos. Disseram uma ou outra vez que um mal muito
grande a havia acometido. Fora embora. Mandaram-na pra longe, onde o vento se oculta,
servir a Deus e à Virgem Mãe. Carlinhos também ficou passado, jogado à
bebedeira e promiscuidade, coisas da juventude, diziam as beatas da cidade.
Ninguém viu o fim, ninguém retratou as tardes de domingo na praça da Saudade.
Vez ou outra, me pego naquela época, escrevendo romances bobos enquanto a vida
desentranhava os caminhos. Quantos Carlinhos e Rosamarias existiram? Se
encontraram no caminho, se amaram por destino? Quis o tempo, ou a vida, que as
coisas fossem assim, ou foi a vontade de não ser assim que os levou pra longe
um do outro? Ou seria minha inútil visão poética e florista dos romances
alheios? Minha mãe já me dizia, essa mania de fantasia ainda vai lhe fazer
sofrer de jeito. Mas é o mal de todo poeta, minha mãe, até parece que a senhora
não sabe disso. Todo poeta em si já nasce com o sofrimento encrustado no peito.
Por isso vê poesia em todo sentimento, em toda tarde domingo, em toda Rosamaria
e Carlinhos.
(8)Pouca gente ouviu falar
Nunca passou na TV
Não vai ser moda, nem livro
Nem vai ter fila pra ver
Delicadeza e doçura
Não fazem muito sucesso
Nem alegrias de bolso
E nem amor que deu certo.
(Lado Z)

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