quinta-feira, 26 de abril de 2012

Divã.




            Então, não me atrevo a pensar no futuro, doutor. O passado ainda acontece dentro de mim. Como espera que eu lide com tanta coisa em tão pouco tempo?! De fato, faz três anos que minha vida se firmou nisso, nessa anedota pueril e sem graça que chamam a vida de um aspirante jurídico. Ah ganância, ah soberba, ah petulância que povoa os anos dourados desta época. Se eu ainda tenho algum vestígio cá dentro?! Ah não, doutor, não sobrou espaço, quer dizer, ficou espaço demais pra eles preencherem. Confesso que hoje me completo de um medo amedrontado e ofegante, uma vontade seca de viver e um montante de frustrações e reclamações ordenadas em catálogo. Não vou discorrê-los, o momento não é oportuno, e por mais que eu lhe pague para me ouvir, até eu estou cansada dessa velha história de sempre.  (…) Porque não deixar simplesmente ir, doutor? Acha que já não me fiz essa pergunta?! A gente não teme o desconhecido até ele se tornar comum. Ou acha fácil acordar todo dia e lidar com pessoas estranhas, fazer ligações interurbanas e enviar correspondências a anônimos de quem sei bem mais do que deveria ou tinha direito de saber?! Saio dos meus afazeres com a certeza de dever cumprido, só minha vida que andou encompridando caminhos que me levam a lugar nenhum. Não doutor, sem companhias, não há porque carregar mais gente pra minha toca, as pessoas têm um poder incrível de distorcer a história, de mudar o quadro, no fim das contas, fazem mais mal que bem, o que eu hei de fazer com mais isso?!
            Ah coragem, coragem, doutor, foi o pilar mais forte dessa história. Mas até o corajoso teme o mundo quando passa a conhecê-lo. Não doutor, não tô bancando a difícil, chega de infantilidade disfarçada, acha mesmo que eu não movi um dedo pra mudar isso aqui?! Foi o que eu mais fiz nos 365 dias que antecederam meu conformismo. Eu tentei, busquei incessantemente destruir meus monstros e construir pontes, dar mais, sem necessariamente querer troca, matei parte de mim mesma pra sustentar o resto. E ganhei o que, me diz?! Perdi pessoas com muito mais facilidade com que as conquistei, se é que algum dia conquistei mesmo, vai saber, certeza eu não tenho é de mais nada. A não ser de que estou quase sempre errada. Pode deixar, não vou começar o melodrama de novela mexicana, já não faz o meu tipo, acredite, mudei mais do que poderia imaginar um dia conseguir. Se guardo remorso?! Aí é querer se aventurar por mares nunca dantes navegados, doutor, sou um mar das mágoas que há em mim. Qual e quando vai arrebentar eu nunca pude precisar, vai depender dos motivos que me levem a isso. Vazia, sozinha?! São coisas por demais habituadas a mim, ah doutor, é isso mesmo que tem a me dizer? Nenhuma medicação, conselho inútil ou recomendação de terapia alternativa, ostracismo, ocultismo, búzios, tarô. Paguei pra isso mesmo, pra falar o que já estou cansada de saber?! Tá vendo, é por isso que eu nem cogito tanto assim futuro. O passado me é presente demais pra permitir isso.      

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