Então, não me atrevo a
pensar no futuro, doutor. O passado ainda acontece dentro de mim. Como espera
que eu lide com tanta coisa em tão pouco tempo?! De fato, faz três anos que
minha vida se firmou nisso, nessa anedota pueril e sem graça que chamam a vida
de um aspirante jurídico. Ah ganância, ah soberba, ah petulância que povoa os
anos dourados desta época. Se eu ainda tenho algum vestígio cá dentro?! Ah não,
doutor, não sobrou espaço, quer dizer, ficou espaço demais pra eles
preencherem. Confesso que hoje me completo de um medo amedrontado e ofegante,
uma vontade seca de viver e um montante de frustrações e reclamações ordenadas
em catálogo. Não vou discorrê-los, o momento não é oportuno, e por mais que eu
lhe pague para me ouvir, até eu estou cansada dessa velha história de
sempre. (…) Porque não deixar
simplesmente ir, doutor? Acha que já não me fiz essa pergunta?! A gente não
teme o desconhecido até ele se tornar comum. Ou acha fácil acordar todo dia e
lidar com pessoas estranhas, fazer ligações interurbanas e enviar
correspondências a anônimos de quem sei bem mais do que deveria ou tinha
direito de saber?! Saio dos meus afazeres com a certeza de dever cumprido, só
minha vida que andou encompridando caminhos que me levam a lugar nenhum. Não
doutor, sem companhias, não há porque carregar mais gente pra minha toca, as
pessoas têm um poder incrível de distorcer a história, de mudar o quadro, no
fim das contas, fazem mais mal que bem, o que eu hei de fazer com mais isso?!
Ah coragem, coragem,
doutor, foi o pilar mais forte dessa história. Mas até o corajoso teme o mundo
quando passa a conhecê-lo. Não doutor, não tô bancando a difícil, chega de
infantilidade disfarçada, acha mesmo que eu não movi um dedo pra mudar isso
aqui?! Foi o que eu mais fiz nos 365 dias que antecederam meu conformismo. Eu
tentei, busquei incessantemente destruir meus monstros e construir pontes, dar
mais, sem necessariamente querer troca, matei parte de mim mesma pra sustentar
o resto. E ganhei o que, me diz?! Perdi pessoas com muito mais facilidade com que
as conquistei, se é que algum dia conquistei mesmo, vai saber, certeza eu não
tenho é de mais nada. A não ser de que estou quase sempre errada. Pode deixar,
não vou começar o melodrama de novela mexicana, já não faz o meu tipo, acredite,
mudei mais do que poderia imaginar um dia conseguir. Se guardo remorso?! Aí é
querer se aventurar por mares nunca dantes navegados, doutor, sou um mar das
mágoas que há em mim. Qual e quando vai arrebentar eu nunca pude precisar, vai
depender dos motivos que me levem a isso. Vazia, sozinha?! São coisas por
demais habituadas a mim, ah doutor, é isso mesmo que tem a me dizer? Nenhuma
medicação, conselho inútil ou recomendação de terapia alternativa, ostracismo,
ocultismo, búzios, tarô. Paguei pra isso mesmo, pra falar o que já estou
cansada de saber?! Tá vendo, é por isso que eu nem cogito tanto assim futuro. O
passado me é presente demais pra permitir isso.

Nenhum comentário:
Postar um comentário