domingo, 4 de dezembro de 2011

(8) Vem o vento e me sopra, eu sou pó.


        Na maior parte do tempo, acredito eu, minha vida é mal compreendida. Não, não é meu drama ou mania boba de esconder aquilo que me corrói por dentro, é que eu nunca fui mesmo compreendida assim tão abertamente, e talvez por isso mesmo eu nunca tenha acreditado quando alguém me diz: eu te entendo.  Entende nada, é da natureza humana ser egoísta assim, como se a vida alheia fosse totalmente mais simples ou menos caótica, qualquer outra coisa mais fácil e alumiada que o que te pertence. Ainda não, eu nunca tinha chegado ao estágio tão grave de falta de controle assim da vida. É como se tudo aquilo que me ocorre fosse castigo, consequência certa de escolha errada que fiz. O que me condena é ver as frações ao meu redor, de tão fáceis soluções com um simples sinal. A minha não, cismou de ter dízima, periódica, sempre que penso estar perto de uma solução, vem ela e me revela números desconhecidos. Eu reclamo atoa na maioria das vezes, mas quando tenho mesmo do que reclamar, me calo. Porque não encontro razão alguma pra externar aquilo que me constrange. E talvez porque eu tenha sido assim forte demais por tempo corrente, e fraquejar diante do que se sente faz de mim menos que humano. E porque também não quero mais ouvir: você não é aquilo que eu pensava. Pensar a gente pensa tanta coisa. Ser o dono da verdade é fácil pra qualquer pessoa. Mas a dor, a dor cá dentro que se esconde no sorriso seco, no olhar disperso, na alegria de fachada, lateja e é crescente, faz que vai, mas nunca passa. Agora não aceito esses juízos alheios que insistem em julgar meu ego comedido, traído e ferido, cambaleante e desvairado. Minha menor tristeza toma toda minha existência. E eu não quero mais nada, não vejo mais nada e assim vejo tudo, porque não sinto essas coisas, mas me afeto do mundo. Olhe bem, o fato é que pra mim se perdeu toda aquela magia, envelheci, e como velho, tão velho ficou meu encanto. Quem é que eu ainda engano com os meus não segredos? De certo é que eu perdi a noção do limite. Da necessidade. É que eu me prendi tanto aos detalhes que a essência de mim se esvaiu. Ando assim um fantasma, maltrapilho de mim.  Um estrangeiro monoglota, perdido em excessos sem fim. Eu não me encontro perto de alguém. É só saudade que me convém. Só meu poeta cantando ao pé do ouvido seus lamentos amargados, consolando meus maus tratos, por não ter mais a me dar, nem eu mais a receber. Sem mais fases e mais fatos, sem carinho ou meio afago, eu desisto dos meus passos, eu só quero meu espaço, pra ser pó, só pó, poeira. “Tu és pó e ao pó "reverteres", em verdade é só isso que queres.

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