Sabe qual é o meu problema? Eu canso das coisas, mas elas não cansam de mim. É, quanto mais me desfaço delas, mais elas permanecem, se encrostam pelos cantos da casa. Tenho tomado remédios, mas há tempo não fazem efeito algum. Nem isso de mudança que todo mundo consegue, comigo não funciona. Hoje me peguei ouvindo discos velhos, que ninguém mais quer; eu quero, traz um bem danado, ainda que nostálgico, ainda que trágico. Combinam com minhas memórias, minhas emoções, em fim, com toda essa bagunça aqui dentro que, sinceramente, desisti de arrumar. No que depender de mim, vai ficar como está, ou pior. Tô quebrando também as promessas que não estou nem um pouco disposta a cumprir, quase sempre elas são quebradas mesmo comigo, não vai fazer diferença. Essa mania tola de lembrar coisas que o mundo inteiro já esqueceu só faz mal a mim mesmo. Lembro formas e sorrisos específicos. Lembro coisas que nem aconteceram, mas vontade não faltou. Nomes, músicas, apelidos e tudo isso que vivo lembrando, mas que eu só queria esquecer. Se tenho saudade? O tempo todo, todo sempre. Sinto falta de mim, de pessoas, de coisas que perdi pelo caminho que escolhi. Mais ainda, sinto falta de quando podia voltar e me encaixar perfeitamente num abraço, numa conversa animada, nos segredos que eu tinha. Verdade, não me adequo a lugar algum agora. Nem passado, nem presente, nem futuro. Estou sempre assim, deslocada e vazia dentro de espaços cheios. As pessoas, sabe, têm acontecido coisas estranhas com elas, ou vai ver é comigo mesmo, mas elas estão cada vez mais estranhas pra quem eram tão conhecidas. Juro não reconhecer mais alguns amigos. Confesso que ando terrivelmente assustada com isso. Pior, tenho medo de não conseguir mais encontrar uma forma menos errada de levar as coisas. Por que sou estragada mesmo, e costumo fazer estragos nos outros também, mesmo que meu intuito seja o melhor. Descobri que não tenho conserto, e vou ter de conviver assim pelo resto dos tempos, torcendo pra que qualquer desavisado se interesse em correr o risco. Tenho vivido assim, sem expectativa, deixando que as coisas sejam fáceis, mesmo difíceis. Andando estupidamente sem rumo, levada por aquilo que chamam de rotina, mas que só preenche de vazio os espaços da alma. E escrevo pra amortecer o que não conserta mais. Na verdade não escrevo, deságuo mesmo.

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