Já deixou de ser tanta coisa. Mas ainda é engraçado. Porque você
está até nas músicas que não são suas. E toda viagem me leva
para aquele lugar no canto da alma que a gente sempre foge quando não
suporta mais a realidade dos dias.
Eu amei você, Zé. Como eu amei. E como foi o amor mais difícil de
ser vivido. Não que não tenham existido outros, mas você foi de
longe a minha mais doente forma de amar. Foi a maior contradição
vivida. E como cada mentira me doeu. E como eu me arrependi, como eu
queria ter feito tudo diferente.
Talvez tivesse ficado algo, por assim dizer, sólido e seguro entre
a gente. Sim, Zé, podia, eu sei que podia. Mas você não quis. Ou
melhor, você nunca entendeu. Você não entendia o caos aqui dentro,
mas fingia saber muito bem. E essa é outra cicatriz que eu não
consigo acalmar nessa alma ligeira e sedenta por afirmações.
Você não, você amava a dúvida, o deixar ir, o leve e solto. Eu
sempre fui presa. Sempre estabeleci e cumpri regras. Não sei ser de
outro modo, e toda vez que fujo disso, me parto em mil pedaços. Como
você fez comigo um dia.
Não, Zé, eu não te odeio. Não te odeio porque te odiar é odiar
o que eu fui um dia. Por sorte ou capricho, já não sou mais, nem
poderia ou deveria. Mas a gente não escolhe o que sente. E toda vez
que a memória resolve brincar comigo, me dou conta do mal
irreparável que você me causou.
Hoje sou mais forte, mais feliz, sonho menos, Zé. Desviei para bem
longe dos passos que acreditei seguir um dia. Tenho vivido meus dias.
Tenho saído, procurado abrigo. Escrevo e apago, ajudo as pessoas,
tenho metas a cumprir, horário também. Estou sempre com a
inquietante sensação de me faltar tempo. Para ser quem agora eu
sou. Para nunca mais perder as rédeas da situação.
Me perdoe a falta de espaço, me perdoa as barreiras e a distância.
Foram escolhas minhas com o seu aval. Quanto mais dias passam, mais
me dou conta de que as coisas acontecem porque a gente deixa
acontecer. Foi o que eu quis, você deixou que fosse. Não me cobre
satisfações agora. Você nunca foi bom nisso. Aliás, ainda estou
tentando descobrir no que você poderia ter sido realmente bom.

Nenhum comentário:
Postar um comentário