terça-feira, 6 de setembro de 2016

"Quem sabe o que é ter sem querer pra si...


"...Não quer ver outro em mim
Não fala do que eu deveria ser
Pra ser alguém mais feliz"
(Rodrigo Amarante)


      A minha vontade, Zé, era de sentar naquela calçada e chorar por tudo o que a vida tratou de ser. Porque não tinha mais jeito. Porque daquele momento em que meu coração caiu em pedaços, eu jamais iria me recuperar. Porque, desde então, eu sou só parte do todo que eu sempre quis ser.
Eu queria ter morrido, bem ali. Um tiro, um salto, uma batida, qualquer coisa que me levasse pra nunca mais voltar. Qualquer coisa que me arrancasse essa tristeza do peito, essa falta de viço, essa escassez de alegria pra seguir os dias. Eu queria a morte porque era a minha tábua de salvação.
Mas tá aí, nenhuma salvação vem assim de graça. Por isso mesmo, paguei todos os pecados e ainda estou acertando as contas. Pago dobrado pra me ver livre do meu trágico destino de já não saber ser quem sou, nem querer ser o que não posso mais.
Ah, Zé, maldita a hora em que me deram a opção da escolha. Antes a vontade suprema me tivesse sido imposta. Maldito seja o livre arbítrio, maldita a liberdade de ser. Já não engulo o choro, nem me faço mais forte ou superior. Deixo a dor doer até a última gota de sangue, deixo a vontade de morrer me tirar o último resquício de vida que me resta.
Não quero pena, nem condolências. Quero ir embora, outra vida, outro disfarce, começar do zero sem justificar o fracasso. Não, Zé, nem a mais tranquila das almas consegue acalmar o aperto que a descrença amarrou em meu peito.
Envelheci mais do que devia, embora eu nada tenha vivido. Queria findar essa angústia que me persegue desde que desisti de lutar contra o destino. Os dias têm me engolido, Zé. A vida esfregou minha cara no asfalto. Me sobram arranhões. Me faltam pedaços.

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