segunda-feira, 16 de maio de 2016

Iceberg.




"Meu caro amigo eu sei que é triste a situação
Sei que a saudade está danada
Mas se você quiser a minha opinião
Você não está perdendo nada”
- Chico Buarque

    Parece que morri ontem, Zé. Não sei, mas uma parte de mim deixou de existir. Aquela que conservava o último resquício de esperança nas minhas escolhas tão certas. O desespero que eu aprisionei no último ano conseguiu se libertar da forma mais brutal: arrebentou as correntes da forma mais feroz, dilacerou tudo aquilo que custei a organizar nos últimos tempos. Cá estou eu, de pé, mas sangrando sem parar após esse fatídico destino de ser eu mesma.
    O mundo não entende a minha dor. Digo, aquele mundo tangível, que me cerca e me condiciona a ser isso. Por mim não, por mim eu ia adiante com as ideias mais absurdas que se passam na minha cabeça. Mas quem vai patrocinar essa vontade furtiva de ser eu? Não tenho meios, Zé, de tal forma que minha condição é essa: sou o que posso dentro daquilo que me oferecem.
    Não me julgue, Zé. A última coisa que quero na vida é saber o seu ponto de vista. Isso é um desabafo, amigos sevem para isso e eu só tenho você. Cada dia mais me vejo só nesse caminho que não me parece nada certo. Nem fé, nem razão, Zé. Hoje só me sobra aquele resto de arrependimento e frustração que decanta no fundo do copo. Que a gente não bebe porque amarga, mas também não descarta porque parece desperdício.
    Eu só não sei o que fazer, Zé. E há muito estou assim. Parece que toda preparação não me serviu de nada no fim das contas. Não me vejo, não me encontro, estou sempre aquém daquilo que esperam de mim. Não sei mais ser eu nesse lugar que não me pertence. Será que você entende o tamanho da minha loucura?! Sou algo que não posso ser, e também não quero, mas preciso ser porque parece certo. E eu já estou pra lá de cansada de ser certa. Talvez fosse mais fácil estar errada.
     E isso tudo é só para te dizer que eu não aguento mais, Zé, e que não quero mais. Mas ainda não chegou o tempo de partir. Quase sempre me dizem que eu tenho uma visão muito ruim disso tudo, que eu enxergo as coisas muito maiores do que elas são. Sei não, Zé, essa distorção não me parece nítida. Isso que eles dizem ser tão grande, para mim, não passa da ponta do iceberg.
    Minha dor tem raiz profunda. Aquilo que grito nem de longe representa o que sinto de verdade. Eu sou estou cansada disso tudo, não quero mais ser, nem sentir. Mas ainda não encontrei coragem suficiente para abandonar o barco. Irônico isso. Receio abandonar o barco, mesmo sabendo que ele continua a afundar. Eu adio a dor, Zé, mesmo sabendo que ela nunca vai passar.   

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