...É quase a mesma, eu sei."(Coisas de Brasília - O. Montenegro)
Tem
sido cansativo compreender a vida, Zé. Me parece uma obrigação
muito difícil de ser cumprida. Sinto falta da época em que as
coisas dependiam bem menos de mim. Veja só, logo eu, sempre tão
independente e tão dona de mim. Apesar de tudo, tenho me obrigado a
sorrir, seguir o caminho e agradecer por tudo o que já se cumpriu.
Meus
medos continuam muitos, Zé, continuo me afogando neles. Embora em
muito pouco me agrade a vida que levo hoje, agradeço a passagem dos
dias. Permanecer numa rotina a contragosto causa danos irreparáveis
na alma. Pelo menos as coisas vão se ajeitar, prefiro acreditar
nessa premissa. É porque não me sobram muitas opções e a gente
precisa ser otimista nesse mundo tão descrente.
Zé,
por mais que me doa a vida, me obrigo a ter uma visão positiva, sei
lá, alimento uma fé suficiente para me fazer levantar a cada manhã.
Porque não depende só de mim, mas não posso também deixar ao bel
prazer do mundo. Só preciso achar o equilíbrio. O limiar exato
entre a minha vontade e o que o Cosmos reserva para mim. Uma tortura
leve de se viver, mas de que mais é feita a vida que a gente leva,
Zé?! Sempre nessa corda bamba de dor e prazer.
Às
vezes me pesa a escolha, mas prefiro acreditar que nenhuma sentença
ultrapassa aquilo que suportamos, sendo assim, minha condenação me
compete, não posso simplesmente abrir mão, bater o pé. Até
porque, quem reclama de barriga cheia, corre o risco de ficar
chupando o dedo no fim das contas.
Mas
eu não reclamaria se me chegasse, sem compromisso, um consolo maior.
Algo além dessas alegrias bestas e poucas que tenho me permitido.
Não sei, Zé. Não quero me acostumar novamente à dor. Mas, a cada
dia, me convenço mais de que minha sentença é essa. Então, o que
a gente faz a respeito? Tenho pensado tanto nisso, Zé. Você não
tem ideia.

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