sexta-feira, 1 de abril de 2016

"A nossa solidão é a do planeta...


...É quase a mesma, eu sei."(Coisas de Brasília - O. Montenegro)

    Tem sido cansativo compreender a vida, Zé. Me parece uma obrigação muito difícil de ser cumprida. Sinto falta da época em que as coisas dependiam bem menos de mim. Veja só, logo eu, sempre tão independente e tão dona de mim. Apesar de tudo, tenho me obrigado a sorrir, seguir o caminho e agradecer por tudo o que já se cumpriu.
   Meus medos continuam muitos, Zé, continuo me afogando neles. Embora em muito pouco me agrade a vida que levo hoje, agradeço a passagem dos dias. Permanecer numa rotina a contragosto causa danos irreparáveis na alma. Pelo menos as coisas vão se ajeitar, prefiro acreditar nessa premissa. É porque não me sobram muitas opções e a gente precisa ser otimista nesse mundo tão descrente.
   Zé, por mais que me doa a vida, me obrigo a ter uma visão positiva, sei lá, alimento uma fé suficiente para me fazer levantar a cada manhã. Porque não depende só de mim, mas não posso também deixar ao bel prazer do mundo. Só preciso achar o equilíbrio. O limiar exato entre a minha vontade e o que o Cosmos reserva para mim. Uma tortura leve de se viver, mas de que mais é feita a vida que a gente leva, Zé?! Sempre nessa corda bamba de dor e prazer.
   Às vezes me pesa a escolha, mas prefiro acreditar que nenhuma sentença ultrapassa aquilo que suportamos, sendo assim, minha condenação me compete, não posso simplesmente abrir mão, bater o pé. Até porque, quem reclama de barriga cheia, corre o risco de ficar chupando o dedo no fim das contas.
    Mas eu não reclamaria se me chegasse, sem compromisso, um consolo maior. Algo além dessas alegrias bestas e poucas que tenho me permitido. Não sei, Zé. Não quero me acostumar novamente à dor. Mas, a cada dia, me convenço mais de que minha sentença é essa. Então, o que a gente faz a respeito? Tenho pensado tanto nisso, Zé. Você não tem ideia.  

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