Há
dias em que eu só quero que o tempo passe sem que eu precise
justificar a vida. Acordei no meio da noite para escrever isso, Zé.
Tão comum. Gostaria que minha cabeça funcionasse durante o dia tão
bem quanto ela funciona à noite. Eu teria os melhores ensaios da
vida para te oferecer. Mas, ainda assim, espero que você receba as
ideias de hoje com a mesma devoção.
Eu
sempre reclamei da falta de retidão e cumprimento de roteiro que é
comum à minha vida. Isso me incomoda em um grau fora do comum.
Porque eu faço lista para tudo. Eu sonho em roteiros. 'Cronogramo' a
minha vida nas linhas da agenda. Tenho tudo estrategicamente anotado
para acontecer. Aí vem o destino e muda tudo. Não atende às minhas
expectativas e eu quero morrer mais uma vez por uma razão que
desconheço. Ou nem tanto, vai ver ninguém conhece melhor do que eu
essa frustração que me persegue toda vez que algo foge do controle.
Estou
em “stand by”, Zé. Parei no tempo, como costumo dizer. Mas foi
algo necessário. Não dava para continuar. A bagunça dos anos se
acumulou de tal forma e atrofiou de maneira tão latente a minha
evolução, que eu precisei me dar esse tempo. Precisei ir embora
para voltar ao que eu era. Ou ao que eu preciso ser e me propus a ser
daqui para a frente.
Muita
coisa deu errado, Zé. Muitos planos ruíram. Cheguei ao limite do
impossível. Desisti de um plano que, apesar de bem traçado, nunca
foi meu. Nunca me pertenceu de fato. E só há muito pouco tempo eu
percebi que, às vezes, para uma coisa dar certo, muitas outras
precisam dar errado. A gente precisa se enganar muito, quebrar a
cara, ver para crer e, quem sabe assim, acertar de uma vez.
Não
estou querendo dizer que agora vai dar tudo certo, não Zé, esse
otimismo nunca me pertenceu. Só estou lhe dizendo que, de uns tempos
para cá, as coisas ainda não se ajeitaram e tudo bem ainda estar
assim. Pelo menos eu tenho feito a minha parte. E sei que não
depende só de mim. Eu não me culpo mais tanto, mas assumo a minha
parcela de responsabilidade. O tempo ainda mexe comigo, mas eu me
obrigo a respeitá-lo. Porque sempre que a gente resolve apressar as
coisas e fazer elas darem certo a todo custo, acaba sobrando muita
frustração e arrependimento.
Eu
aprendi muito, Zé, muito comigo e com o que eu fui. A gente não
pode se culpar pelo que fomos um dia, mas temos total
responsabilidade sobre aquilo que somos e ainda podemos ser. Eu tenho
me obrigado a ser melhor todo dia, Zé. Para mim e para os outros. Eu
tenho reclamado muito menos. E tenho agradecido mais. Tenho esperado
na calma que nunca tive, porque me dei conta dos limites que a minha
própria existência estabeleceu.
E
com tudo isso eu não pretendo lhe convencer de que sou o melhor dos
seres humanos agora, e que mereço o perdão e a misericórdia de
todos. Não sou espelho para ninguém. Continuo terrivelmente errada
no meu jeito, Zé. Ainda custo a virar as páginas, mesmo sendo
página virada na vida de tanta gente. Mas, pelo menos, me propus a
ver isso. Faço esse reexame todas as noites. Peço a Deus para ser
alguém melhor e toda manhã me proponho a fazer isso. Mesmo errando.
Porque eu descobri que melhor tentar e, quem sabe assim, acertar um
dia, do que condenar todos os outros pelo fracasso de um só. A vida
segue, Zé. E, para o nosso próprio bem, ela nunca deixará de fazer
isso.

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