Imagem do: http://edicoesantipaticas.tumblr.com/
Interstício. Do latim, interstitium.
Período de tempo anterior e sem o qual
um ato não pode ser realizado.
As
palavras que hoje escrevo me povoam há um tempo bastante
considerável. Um tempo que só fez sentido depois de ter passado.
Talvez soe maluco da minha parte, não consigo ser exata quando se
trata do meu ser. Mas esses dias, enquanto trabalhava a chegada do
novo ano, suas metas, mudanças, alcances e medidas, recebi visitas
insistentes de um passado nada feliz. Talvez devesse ser como toda
adolescência/juventude acaba sendo na vida de alguém. Eu sei,
falando assim, até parece que envelheci vinte anos, e que esse
passado hoje é inatingível, inabalável e, por conseguinte, sem
significado. Talvez devesse. Bom, poderia pesar um pouco menos.
Eu
falo de invasões. Falo de doações equivocadas de um tempo precioso
que custou bem caro no fim das contas. Falo de noites e madrugadas
mal vividas num ritmo ditado pela tecnologia da época. Falo de
relações idealizadas e frustradas pela falta de jeito. De ambas as
partes. Eu era ingênua. Meu Deus, como era e talvez ainda seja. Mas,
ao contrário do que se pensa, eu tinha consciência disso. O tempo
todo eu tive. É mesmo possível se machucar quando a gente tem
consciência do perigo? Hoje tenho plena consciência de que isso é
mais do que possível, e acontece com uma frequência absurda.
Sabe,
é difícil perder algo que se quer muito, dói pra caramba. Muitas
vezes a gente também parte quando alguém vai embora. A gente pensa
numa infinidade de possibilidades e combinações diferentes daquelas
que se sucederam e acabaram por terminar as coisas. E sempre chega à
conclusão de que poderia ter sido diferente. Poderia ter sido desse
ou daquele jeito; poderia não ter acontecido e todas essas coisas
que só servem para magoar a ferida e torná-la ainda mais profunda.
Eu quis morrer. Um milhão de vezes durante anos e anos seguidos. Eu mudei completamente a forma de ver aqueles que seriam os anos dourados da vida que pedi a dedo. E hoje eu a trocaria por uma única chance de fazer tudo de novo, do zero. Mas só valeria se eu tivesse a cabeça que tenho hoje. Voltar a ser quem eu era não mudaria em nada a história. Por isso mesmo, me convenço de que é totalmente impossível mudar o passado. A gente só muda a partir do agora.
Eu quis morrer. Um milhão de vezes durante anos e anos seguidos. Eu mudei completamente a forma de ver aqueles que seriam os anos dourados da vida que pedi a dedo. E hoje eu a trocaria por uma única chance de fazer tudo de novo, do zero. Mas só valeria se eu tivesse a cabeça que tenho hoje. Voltar a ser quem eu era não mudaria em nada a história. Por isso mesmo, me convenço de que é totalmente impossível mudar o passado. A gente só muda a partir do agora.
Mas
eu quis morrer, nossa, como quis, e ainda quero, às vezes. Isso não
me espanta. Mas a vontade de fazer diferente hoje é bem maior.
Parece até que grita na minha cabeça toda vez que retorno para a
ladainha ensaiada. Por isso, tenho me cuidado. Pela mesma razão,
mudei o cabelo, o gosto musical, a forma de me vestir e a cor do
batom. Quero outra formação. Um caminho que em nada se assemelha ao
traçado inicialmente. E muitas pessoas vão rir dessa minha
“loucura”. Já estou preparada.
Aliás,
só muito tarde eu me dei conta de como fui piada pra muita gente.
Desde cedo. Desde sempre. Por motivos diferentes, a minha estranheza
causava incômodo. Mas hoje eu tiro proveito da situação. Aprendi a
me defender. Recebo a pancada, mas sei revidar na mesma proporção.
Cortei
laços. Desfiz vínculos. Cravei pontos finais em sequências
infindáveis de vírgulas e reticências. Não gosto de ser lembrança
amarga na vida de ninguém. Da mesma forma, não me permito mais
guardar lamentações em caixas de pensamento. Toda vez que um
arrependimento bate à porta, trato de expulsá-lo com uma enxurrada
de palavras em decadência. E é disso que estas páginas têm sido
alimentadas.
Se
de alguma coisa valeu todo esse decorrer da vida, hoje agradeço o
tempo pela pessoa que me tornei. Graças a ele, não sou mais o que
pensei que era ou poderia ser. Mas ainda posso ser o que eu quiser.
Quero muita coisa, numa medida exata de tempo, vontade, coragem e
merecimento.
Serei
melhor para aqueles que provarem merecer. Corajosa, quando a vida
assim exigir. Cumprirei a vontade sempre que ela se mostrar
verdadeira o suficiente para me fazer sentir viva. E respeitarei o
tempo. Acima de tudo, aceitarei quando ele me der provas cabais de
que ainda não é chegada a hora. Sem atropelos. A gente só vem para
essa vida com o intuito de morrer. Desfrutemos o interstício. A
palavra de ordem é paciência.

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