Ainda não me
perdoei pelo último vacilo, Zé. Depois de constatar outra crise, percebi que
muito pouco evoluí desde as últimas medidas extremas tomadas. Ainda não sei
conviver em paz comigo e minhas escolhas malfeitas.
Antes fosse
pra perdoar alguém. Com o tempo aprendi que perdoar os outros é um exercício
diário, condição própria da existência humana. Mas falo de mim, de aceitar a
minha falha sem mais julgamentos e juízos de reprovação.
Sou
imediatista, Zé, quero dar jeito no mundo ou, pelo menos, diminuir as
diferenças. E, por melhor que seja a minha intenção, muitas e muitas vezes acabo
metendo os pés pelas mãos. Por isso mesmo, me odeio por dias, e meses, e
semanas.
Anos, já fazem
anos que nutro uma repulsa por parte da minha existência, sufocada e ressequida
em uma penumbra daquilo que consegui, por fim, tratar de ser. Assustador isso
de não se aceitar em si mesmo.
Não, Zé, não
quero fugir de mim, só não consigo mais lidar com essa “desaceitação” que estremece
a estrutura. Gosto da maior parte do que consegui ser tomando por base aquilo
que já fui e não sou mais. Mas tem uma parte de mim que não me deixa, mesmo
depois de tantas e tantas cartas de despejo.
Quantas e
quantas vezes eu já não me despedi de mim, Zé?! Você mesmo já presenciou tantas
dessas dispensas. Fecho a porta e dou de cara com meu eu arrependido rindo da
minha cara! Me odeio de novo, e uma outra vez.
Já pensei em
mil e uma formas possíveis e impossíveis de resolver isso. Você bem sabe de
todas as minhas alucinações a esse respeito. Quero me desprender de mim, Zé.
Quero que aquele outro eu me deixe em paz de uma vez por toda.
Eu não sei me
perdoar, Zé. Não consigo aceitar aqueles erros que, por mais distantes e
esquecidos, ainda latejam no meu pensamento com uma culpa impossível de
mensurar a dimensão. Essa culpa afeta meus dias. E cada dia afetado é um dia
perdido pra mim. Já até perdi as contas de quantos foram desperdiçados. Talvez
uma vida, Zé. É assim que eu vejo, às vezes. Toda ela, um desperdício. E eu
também já não posso me perdoar por isso.

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