Tenho perdido
a fé, Zé. Constatei isso com os dias que se sucedem sem qualquer relevância. A
verdade é que um cansaço descomunal do mundo me recai sobre as costas todos os
dias, e eu já não tenho forças para lutar contra isso.
Sabe, antes me
incomodava demais o fato de ser a chata da história, a melodramática. Hoje eu
encaro a chatice como só mais um dos meus muitos problemas, os quais eu nunca
vou dar jeito. Não tenho amigos, nem garantias, agrados, ou coisas que
realmente me façam felizes. Talvez o violão ainda me traga um certo consolo e,
claro, conversar com você, meu fiel esconderijo. Mas, fazendo uma média da vida
em si, nada, isso mesmo, exatamente nada me traz realmente uma dose
considerável de felicidade.
Não me julgue,
Zé, não venha me dizer que é só mais uma dose cavalar do meu exagero. Dormi mal
e acordei pior, pode ser que seja só mais um dos meus muitos dias ruins. Então
senta e espera, porque ele está prestes a terminar, falta pouco.
Hoje, nem
música, nem sono, conseguem acabar com a preguiça de viver que se instalou. Não
classificaria nem como preguiça, mas falta de coragem mesmo. Minha vontade é de
desistir de tudo, Zé. Não que eu tenha muito a abrir mão. Se pesarmos na balança,
não compensa nem o tempo que gastei te dizendo tudo isso.
Não tenho
nenhum grande feito, não contribuo para paz mundial, nem o fim da fome ou
escravidão no mundo. Não sou a filha mais exemplar, nem a amiga sem a qual você
não vive, muito menos o amor de alguém (reconheço isso com a habitualidade dos
anos e das pessoas que passaram). E talvez eu nem queira mesmo ser alguma coisa
no fim das contas.
A verdade, Zé,
é que eu desisti faz muito tempo. E só não reconheço isso para os outros. Tento
enganá-los e assim me engano ainda mais em mim mesma. Eu sou a pior de todas as
farsas que criei e, por penitência, tenho que vivê-la todos os dias por ser essa
a única opção que me sobra. Aqui se faz, aqui se paga, e eu nem sei bem o que
fiz, mas pago o preço com tudo o que tem direito.
Mas hoje, só
hoje, eu queria mesmo ir embora, Zé. Pra onde eu não sei. Sair daqui, sair de
mim, deixar morrer, sei lá, qualquer das opções ou até nenhuma delas. Tô
cansada, Zé, não é tristeza, talvez carência ou excesso de solidão, eu só não
quero mais nada disso, você me entende?
Se sim, ótimo,
fica aqui comigo. Se não, me empresta ao menos o ombro amigo que já não encontro
em qualquer outro lugar e me deixa tentar esquecer de todos os acasos e motivos
que me fizeram chegar até aqui. Porque eu ainda tento entender, mesmo sabendo
que em nada vai dar jeito.

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