Então ela se foi, Zé. Sem flores e homenagens regadas de hipocrisia e peso na consciência. Foi porque quis. Sem mais. Ela seria capaz de retornar só para constranger aqueles que ousarem falar meia dúzia de palavras condescendentes. Morreu sem nenhuma surpresa, embora causasse espanto o fato de as coisas terem acontecido como aconteceram. Mas devo lhe refrescar a memória.
Ainda na infância, fora incompreendida pela sua falta de sono e ímpeto de coragem sempre presente e marcante. Desconfiava da própria sombra e nunca aceitava um “não” como resposta. Foi afogada em sua vivacidade mirim de não ter medo, encurralada pelos muros altos e portões sempre trancados, asfixiada pela vida de seus colaterais, por apresentarem um comportamento tão prudente e contido diante da vida.
Ainda criança, aprendeu a se refugiar nas palavras por nunca encontrar conforto ou ouvinte para suas angústias. Sempre fora só. Sem aglomerações, sem grupinhos para festinhas. Preferia a atenção dos adultos, ouvir músicas de um tempo que nem viveu e aprender mais sobre história e literatura.
Aconchegou-se nos braços de Nossa Senhora lá pela metade da segunda década. Ouso dizer que fora o tempo mais feliz de sua vida. Ela concordaria. Manhãs pintadas de amarelo, azul e verde. Fone de ouvido compartilhado. Fé fortalecida. Quase seguiu a vocação, mas foi o “quase” que fez toda a diferença. Eu não sei dizer, Zé, mas, se não fosse o “quase”, talvez ela ainda estivesse aqui.
Os anos se seguiram como era de se esperar. Ainda nesse tempo, fez a difícil escolha de definir seu destino. Que tragédia, como definir destino quando não se quer seguir nenhuma das opções apresentadas? Optou por aquela que fazia seu coração oscilar. Morreu sem razão, por pura teimosia da mocidade.
Condenou seus últimos passos a um caminho cercado de perigos e pisos falsos. Tentou dar cabo da vida muito vezes, e morreu em si toda vez que o dia pesou mais que a alma. Tornou-se amarga. Provou do próprio veneno e depois curou-se. Ou assim pensou.
Como era de se esperar, enfrentou a tempestade e enfim chegou ao destino final. Suicidou-se dentro da realidade. Não era nada daquilo que tinha pensado. Pensou mais um pouco, tentou seguir em frente. Completou o ciclo daqueles que se consideram semelhantes.
Não havia alegria. Ao que parece, tudo não passava de simples cumprimento de obrigações. Burocracias da vida. E como quem espera sua vez de ser chamada, assim ela esperava a vida melhorar.
Começou a temer quando se deu conta de que tudo seria mais difícil ainda do que pensava. Fugiu de tudo. Trancou-se em si e jogou a chave fora. Teve medo do dia e não dormia por temer o amanhã. Pensou em procurar ajuda, mas aí já era tarde, ninguém iria acreditar, como sempre fora em sua vida. Ninguém acreditava.
E, por fim, ela também preferiu não acreditar mais. Num lapso de sanidade, coisa que lhe faltava fazia tempo, planejou terminar aquilo que não iniciou por vontade própria. Morreu sem maestria, sem saudade ou arrependimento de que tudo poderia ter sido diferente.
Eu sei que você vai imaginar mil besteiras, Zé, mas quando você descobrir que as coisas não saíram como propunha o passado pro futuro, vai ter de concordar comigo que ela não encontraria melhor saída.
Depois que a dor é feita silêncio resta apenas respeitar a mudez do outro. A partir do momento em que nos damos conta de que o amor que a gente quer nunca chega e aquele que nos oferecem pode nunca suprir nossa necessidade, não se encontra um motivo maior para ficar.
E a gente só quer saber de ir embora mesmo. Sem remédio ou poesia. Partir e nunca mais voltar a ser aquele que, simplesmente, não se pode mais ser. Dizemos adeus mais um milhão de vezes e então partimos. Sem consolo, sem verdade, sem vontade e, quem diria, sem sequer nos lamentar.
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