domingo, 3 de agosto de 2014

Distração.




    Tenho vivido, apesar de tudo, Zé. Sem cumprir metas. Sem fantasiar. Sem programar além do que se pode ver. O fim de semana tem trazido à tona uma maré de saudades. Saudades bestas, Zé, eu sei. De coisas que não vão voltar. Até daquilo que me fez mal. Eu sei, é só mais um dos meus tantos limbos. Deixa estar. Amanhã passa, Deus tem contendas maiores pra que se ocupar. Tenho feito aquilo de que mais gosto depois de ouvir música. É bom descobrir que se sabe mais do que se acredita. Tenho sido mais tolerante comigo e com o próximo, ainda que me doa a alma. Gostaria de mais tempo comigo também. É que eu ainda sinto falta, Zé, de mim. De saber quem sou. Juro que é verdade, não minto. Minha maior vontade é mudar. Mas por onde começar se nem sei onde termino? 
    Parei de ter certezas, Zé. Ainda espero ligações que podem nunca acontecer. E, a cada dia que passa, elas me parecem mais impossíveis. Cansei de algumas pessoas pelo simples fato delas já serem passado demais pro meu presente surrado. Relendo meu arquivo, ainda me encontro em entrelinhas borradas que nem fazem mais sentido. E isso me dói mais que a própria morte. Talvez, também, por que é domingo, e sendo assim, não há como as coisas serem melhores. Preciso de uma distração mais convincente, Zé. Ando distraída demais pro meu gosto. 
    Melhor que contar estrelas é poder vê-las todas as noites. Eu sei que a vida não é justa, Zé. Nem de longe. As pessoas vêm e vão, seguem suas vidas de júbilos e angustias. E ninguém espera de volta o tapa que deu. Também não acredito nessa de pagar pelo mal que se fez a outrem. Não existe um culpado para responder pela cobrança, e só há um Deus a quem devemos prestar conta. O mínimo que se pode fazer é cuidar de si mesmo, porque o tempo vai mostrar que ninguém fará isso por você.
   E eu não desejo a ninguém chegar ao fim do poço sem pelo menos uma alegria. Isso mesmo, essa de ter consciência de que, pelo menos, não se está mais caindo. A vida é abruptamente patética e rotineira. Tudo o que traz emoção acaba por roubar uns anos de nós, Zé. E é só isso. Por mais que doa, na maior parte das vezes não se deve abrir mão de si mesmo. Temos que viver por nós mesmos. Ou vamos morrer pela mesma razão.

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