terça-feira, 22 de julho de 2014

Se alguém perguntar, diga que morri.

  


    Faz um mês, Zé. Ou mais, não sei dizer ao certo. Só sei que morri e já não me recordo se isso é bom ou ruim. Pudera, o tempo não parece mais ter tanta importância assim. O que eu estou querendo lhe dizer, Zé, é que, de repente, a gente acorda e tem 20. Amanhã, quase trinta. Pois é, o que se faz nesse meio tempo eu ainda estou tentando descobrir, e assim que eu souber, te conto. O último ano se passou sem muito alarde. Desisti de uma carreira, Zé. Resolvi me agarrar com unhas a dentes a você e a tudo o que essa relação arisca e poética se tornou. Mudei o cabelo. Aos poucos tenho me moldado àquilo que sempre fui e nunca aceitei. 
   Já sei, você vai me perguntar o porquê disso. Eu lhe digo. Porque eu sempre quis uma nova opção praquilo que se tornou chato demais nos meus dias, cansativo. E você sabe, quando não se tem mais alternativa, eu invento. Tá aí, inventei mais uma. Depois de matar tudo e todos aqui dentro, decidi por bem morrer, dar descanso ao que não tem mais jeito. Eu tenho ouvido as canções perfeitas e captado as mensagens exatas. Tenho as pessoas certas com quem contar. Me sobram ideias, palavras, vontades e sonhos. 
   O mundo, esse não é bom não, e julgo dizer que nunca foi. Mas nem por isso a gente vai desperdiçar a passagem e deixar de apreciar a vista. Tem música nova saltando dos altos falantes da alma. Resolvi poetizar o que era drama. A gente sempre consegue adoçar a tragédia com uma palavra ou outra. Tenho seguido à risca a receita. Tem funcionado. E cá dentro eu sei que isso não condiz em nada com meu passado. Por isso o velório. Se alguém perguntar, morri sim, e estou bem, obrigada.  





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