Ah Zé, sinto o peso dos dias nas costas, hoje vejo que minhas preocupações de cinco anos atrás não passavam de acasos. Acaso a vida faz mais sentido com o tempo ou a tendência é essa que estou sentido: perdendo a direção sem nem ao menos saber qual o rumo? Zé, os livros não me consolam mais, só me provam que a vida de mero espectador perde o sentido cada vez que os créditos aparecem na tela. Meu último romance me fez desejar nunca mais ter uma primeira impressão de alguém, porque as pessoas não são o que querem, Zé, elas são o que podem ser. Não me entenda mal, já vi esse filme antes, o bad-boy vai se apaixonar perdidamente pela garota feia e vai despertar um mundo de magia em suas vidas. Eles vão superar as dificuldades, casar, ter filhos, uma casinha branca com cerquinha e jardim com flores. Não, Zé, não há felizes para sempre nessa história. Ou o cara vai fazê-la de tonta na frente de todos, ou morrerá de uma doença crônica. E a realidade que eles viveram perderá todo o sentido quando ela se der conta que não se recupera o que foi perdido, assim como não se espera por aquilo que já se conquistou. Eu sei, Zé, meus pensamentos e anseios andam confusos, e eu tenho me lamentado mais do que realmente feito algo pra melhorar as coisas. Vê a bagunça na escrivaninha, acredita mesmo que ainda sou eu quem habita essa corpo? A mesma capa com outro sentido? Não sei Zé, e não quero remoer com você o que foi vivido, nem quero mergulhar nas amarguras dos dias perdidos querendo o que jamais pude ter. Tenho assistido o ano correr como em prova de atletismo, e nem espero pelo feriado da semana, o desafeto da vida e o descontentamento com o que tenho me tornado têm me impedido de acreditar nos finais felizes. Nas recompensas. Tenho visto a vida como pena cominada de prisão perpétua, cárcere privado em um mundo que lhe impõe como punição maior viver. Pode isso Zé? Espero que não. E cá dentro ainda guardo a ávida esperança de que essa seja só mais uma das minhas muitas impressões.

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