terça-feira, 6 de agosto de 2013

A gosto de quê.



   O inverno amenizou a crise. Da varanda eu percebo o sol romper a barreira do previsível e se instalar nas dependências do prédio. Não é a luz que incomoda, é o calor pungente de quem sofre a agressão humana de tantos séculos. Mas a música ambiente me faz desviar o foco, a nãos ser quando um dos automóveis rompe a linha do silêncio, fazendo meu ouvido entrar em limbo. As pimentas alegraram o cenário da manhã, os crisântemos ocuparam o vazio do meu peito, a roseira não vingou, parecia predestinada ao fim precoce, contentou-se em ser o que um dia lhe permitiu. As cortinas passam o dia fechadas, é o incômodo do costume à escuridão. A brisa sopra, sempre bem vinda, encontra o ritmo perfeito da última canção que tocou. O gotejo do chuveiro me faz querer gritar toda vez que me concentro e, não fosse o fato da vida parecer demasiada grande e cansativa, já teria me prontificado a chamar o encanador. No entanto, contento meu ego sinistro a torcer mais forte a torneira. Talvez pare. Ou nunca passe, assim como certas coisas na vida. Li outro romance policial e senti o formigamento na cabeça. Sei que tento controlar meu instinto, mas sou acometida pela ideia corrupta de que talvez um crime passional estampe minha ficha. Meus sonhos dizem que sou uma forte candidata. O vizinho da esquerda se mudou. Sinto a faca atravessar a coluna com mais destreza, os joelhos rangerem, mas me obrigo a acreditar que não passam de coisas da minha cabeça. E se tudo não passar disso, de que me adianta continuar vivendo os dias? Agora pedimos chuva, nem que seja uma garoa de fim de tarde pra coroar o dia. Sinto o cheiro inconfundível de infância regada, terra molhada. Meu pôr-do-sol tem sido feliz desde a mudança. Troquei a trilha sonora, mas os pesadelos das três da manhã ainda me causam náuseas. E começo a temer que a cura nunca sara até o fim. E que o tempo nem sempre é remédio, mas nossa consciência não nos deixa ignorá-lo. Agosto chega, abençoado e mal visto, e no fim nós aprendemos a veranizar as coisas quando não encontramos outro jeito. Já percebeu como tudo parece mais interessante ‘naquele verão’? É a saída que restou para as lembranças. Porque precisamos correr, achar alguém, e ser feliz, e ir além, e não se conter, e ver a vida assim. Mesmo estando tudo por um triz.

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