sábado, 27 de julho de 2013

Alguém desacelere isso.



        Era só mais uma dor de cabeça, Zé. Dessas que duram uma semana. Depois de arrastar a semana a duras penas, tirei o dia pra resolver as pendências da casa. Estrategicamente reorganizei os armários, silenciosamente tentei por ordem na vassoura, no arrastar dos móveis, evitando qualquer forma de incômodo ao vizinho, ao sono, ao descanso daquele cuja minha faxina não dizia respeito. O peso da idade, bem como dos dias, escolhas, desastres e desistências têm me pesado mais do que nunca nas costas. Tenho tido dor de alma, Zé, que ninguém explica, e a ultrassom não acusa, nem a tomografia, ou o hemograma. Tenho morrido desde então umas mil vezes enquanto busco uma cura para o mal estar, o inchaço nos pés e a febre. Até o frio tem incomodado, o que é mais do que estranho, levando em conta minha paixão por temperaturas baixas. Tenho abusado dos medicamentos e, no entanto, sofri todos os efeitos colaterais, menos a cura. Zé, tenho sentido a vida cada vez mais fraca, sem graça e vazia pra mim. Tenho procurado outras músicas pra me apaixonar, outros livros pra me distrair, outras histórias pra contar, mas aí chega a noite e com ela toda a dor de um dia desperdiçado. Toda noite é a mesma sensação, a comichão no peito e o desejo comodista do coração parar. Eu até escuto aquela música pra tentar engolir o silêncio, mas tem sempre o barulho do vizinho pra me tirar do limiar ínfimo de paciência. E, em vez de morrer, desejo furtivamente matar alguém. Entenda bem, Zé, ao menos uma vez me deixe dizer isso sem que pareça exagero da minha parte. Estou cansada de tomar conta da vida, de fazê-la funcionar porque tem que ser assim. Porque tenho tudo e não devo reclamar de barriga cheia. Barriga cheia dá indigestão, Zé, fica aquela sensação de estar cheio de um vazio sem fim. E eu tenho estado cheia de nada, faço de tudo e não me vejo sorrir. Sorrir dói, Zé, me diz se tem cabimento isso?! Por que só eu arrumo a bagunça? Porque só eu sou durona e quando caio, estou apenas fazendo doce, querendo chamar atenção? Se não quer ajudar, tudo bem, mas não atrapalha, não vem impor suas prioridades como se elas fossem "nossas". Talvez eu só queira mesmo um fim de semana sem me dedicar à simplificação da vida dos outros. Porque de tanto simplificar, a gente se habitua a não ser difícil com ninguém, Zé, e é aí que mora o perigo. Quando você se der conta vai ver que só consegue ser difícil com você mesmo.

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