Zé, cuida bem das coisas que lhe digo, pra memória não ser fraca e lá na frente se contradizer. Eu gosto de livros, de música ambiente, da minha cama e do meu travesseiro. Trago sempre meu terço pendurado como proteção. Meu perfume tem aquele frescor de laranjeira que me faz recordar a música de Nando e a infância que tive. Gosto de tudo o que é agridoce, sempre exagero na manteiga do pão e fico com sentimento de culpa depois de devorar uma barra de chocolate. Mentalizo uma conversa inteira antes dela acontecer, e nunca sigo à risca o ensaio. Escrevo poesia pra desviar o pensamento e não suporto solos de guitarra. Só abro exceção pra Call Your Name, você bem sabe disso. Sim, eu repito a música cinquenta vezes e não abuso, e tenho um ciúme incontrolável dos meus cantores, das minhas canções, dos meus discos, dos meus acordes. Decoro versos e datas de aniversário, e também atribuo características astrológicas às pessoas. Tenho insônia, ou ela me tem, não sei dizer a certo. Gosto de canções antigas em versões recentes, de chorar ouvindo música e não me importo de parecer sempre triste. Alegria demais incomoda e eu só quero irritar determinadas criaturas. Sempre que posso, durmo, mas ainda assim tenho olheiras infinitas. Tenho dedo podre e me arrependo das promessas impossíveis que fiz. Detesto atender telefone, e você nunca vai me ouvir de bom humor do outro lado da linha. Prefiro escrever cartas. Eternas, extensas, cheias de pontos, vírgulas, reticências, cheias de um eu que já foi, que não é e nunca mais será o mesmo. Leio bula de remédio e acabo sentindo os sintomas. Me recuso até o último grau a tomar remédio e a ir ao médico também. Morro mil vezes se for preciso pra me poupar desse tormento. Mas sofro de um leve grau de hipocondria, por isso trago sempre álcool gel na bolsa. E lenços, muitos lenços. Dirijo sempre cantando. E ai de você se reclamar do repertório, é despachado em plena Presidente Dutra. Também pretendo passar no próximo concurso, mudar de cidade, cortar o cabelo e aprender a tocar violão. Anota tudo aí, Zé, a memória anda cansada, e eu não quero me culpar pela vida que não tive por esquecimento.

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