De
quê me adiantou, Zé, ter amado sem terem me pedido? De que me adiantou cativar
e cultivar as pessoas, nos dias quentes, nas madrugadas frias, eu sempre acabo
como ontem, sozinha no meu canto, chorando as migalhas que recebo. Ando tão
cansada, tão abusada da vida, tão descontente com aquilo que me tornei, com
tudo o que tenho em mãos. Os outros inflam o peito e dizem que tenho tudo, que
reclamo atoa. Mas o que é tudo pra eles, Zé? Honestamente, tenho uma vida
rotinada, um cronograma completo e milimetricamente cumprido. Mas minha vida é
vazia, meus dias são fracos, confesso não lembrar-me do que ocorreu segunda
passada e, francamente, não faz diferença alguma lembrar ou esquecer. Dedico
tempo e dinheiro a coisas que me aborrecem tanto, que machucam meu humor. E
tenho fantasmas que não me deixam em paz, Zé, eles só querem a mínima
oportunidade para me infernizar. Minha alegria decantou no fundo do copo, minha
alma tem sede de sabe Deus o quê, meu descontentamento é tão visível e
gritante, que chega a mesclar meu sorriso. Eu nem sorrio mais, Zé, porque não
vejo motivo, porque acho tudo um desperdício. E eu não encontro um minuto de
paz no meu dia, nem enquanto dirijo ouvindo minha música de predileção. Rezo
copiosamente para o dia findar, a fim de poder recostar a cabeça no travesseiro
e me entregar ao pesadelo da noite, porque já me acostumei a ele. De tudo o que
me persegue, é o que menos assusta. A gente não pode mudar o mundo, Zé, às
vezes, nem a nossa vida é passível de mudança. E receio que as coisas nunca
mudem a ponto de me agradar um pouco.
