domingo, 6 de janeiro de 2013

Fix You



     Sabe Zé, às vezes, eu tenho a leve impressão de que quero beber mais do que a vida pode me oferecer. Não, Zé, não é egoísmo. Nem birra de pirralha petulante. Eu te prometi que era a última queda em meu inconformismo exacerbado. A gente só pode mesmo abrir mão quando o destino se encarregou de resolver o que não tinha mais jeito. E você acompanhou minha recuperação homeopática e meu sorriso casto de volta à vida. Não cabem mais tantas tristezas no meu dia. Mas não sou tola de lhe garantir minha total recuperação. Ninguém se cura cem por cento, nem da vida, nem da morte. Eu tenho tentado, Zé, constantemente tenho travado batalhas contra mim mesma na esperança febril de terminar os dias sem acabar com eles. Tenho contido as lágrimas por situações óbvias que não comportam mais tanto desconforto. Tenho me habituado ao fato de não estar habituada à realidade que circunda meus olhos e abraça minhas pernas, me deixando suspensa. Tenho segurado com a postura de quem sabe o que não quer, de quem mantém distâncias confortas com o olhar, porque é tudo o que eu posso fazer. E é o que eu faço, Zé, dia após dia, semana após interminável semana, até que a tortura de saber o quanto disso tudo vale alguma coisa termine. Mas cansa, Zé, volta e meia me encontro presa a sonhos vazios e contorcidos de remorso. E o que eu posso fazer? Não há como consertar uma pessoa. Tento me certificar inúmeras vezes de que minhas falhas não comprometam minha estadia breve. Não se começa duas vezes, mas os fins podem ser intermináveis. É assim Zé, quando nos damos conta de que perdemos algo que não pode ser substituído, que uma última oportunidade nos foi roubada, e nossas fantasias foram ignoradas. Quando encaramos a realidade de aprender com os próprios erros. Eu esperei demais o que necessariamente nunca veio. Eu me dei conta disso. E ainda assim, há dias em que eu me sinto tão fragilizada e pouco tocada pelo que a vida me entrega todas as manhãs. Talvez eu precise aumentar a dose, talvez eu mude mais uma vez de tratamento. Talvez eu só precise me acostumar ao medo de falhar comigo mesma novamente. 

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