Sabe Zé, às vezes, eu tenho a
leve impressão de que quero beber mais do que a vida pode me oferecer. Não, Zé,
não é egoísmo. Nem birra de pirralha petulante. Eu te prometi que era a última
queda em meu inconformismo exacerbado. A gente só pode mesmo abrir mão quando o
destino se encarregou de resolver o que não tinha mais jeito. E você acompanhou
minha recuperação homeopática e meu sorriso casto de volta à vida. Não cabem
mais tantas tristezas no meu dia. Mas não sou tola de lhe garantir minha total
recuperação. Ninguém se cura cem por cento, nem da vida, nem da morte. Eu tenho
tentado, Zé, constantemente tenho travado batalhas contra mim mesma na
esperança febril de terminar os dias sem acabar com eles. Tenho contido as
lágrimas por situações óbvias que não comportam mais tanto desconforto. Tenho
me habituado ao fato de não estar habituada à realidade que circunda meus olhos
e abraça minhas pernas, me deixando suspensa. Tenho segurado com a postura de
quem sabe o que não quer, de quem mantém distâncias confortas com o olhar,
porque é tudo o que eu posso fazer. E é o que eu faço, Zé, dia após dia, semana
após interminável semana, até que a tortura de saber o quanto disso tudo vale
alguma coisa termine. Mas cansa, Zé, volta e meia me encontro presa a sonhos
vazios e contorcidos de remorso. E o que eu posso fazer? Não há como consertar
uma pessoa. Tento me certificar inúmeras vezes de que minhas falhas não
comprometam minha estadia breve. Não se começa duas vezes, mas os fins podem
ser intermináveis. É assim Zé, quando nos damos conta de que perdemos algo que
não pode ser substituído, que uma última oportunidade nos foi roubada, e nossas
fantasias foram ignoradas. Quando encaramos a realidade de aprender com os
próprios erros. Eu esperei demais o que necessariamente nunca veio. Eu me dei
conta disso. E ainda assim, há dias em que eu me sinto tão fragilizada e pouco
tocada pelo que a vida me entrega todas as manhãs. Talvez eu precise aumentar a
dose, talvez eu mude mais uma vez de tratamento. Talvez eu só precise me acostumar
ao medo de falhar comigo mesma novamente.

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