terça-feira, 20 de novembro de 2012

Forasteiro.


    Foram mais de 2000 janelas abrindo e fechando. Cá eu vejo a forasteira de outrora, recatada e imperiosa, tentando encontrar seu caminho em meio aos véus e nudezes da vida. Sempre guardou mais do que podia aguentar, talvez por isso tenha amado tanto, cultuado passado e lamentado os dias que se seguiram. Coração alado mais vale que vagabundo. Pelo menos não se prende ao que não presta, vive livre, voa solto, pousa quando e onde bem quer. Seu pobre atroz involuntário músculo vacilou pela sarjeta, quase sempre entregue aos resquícios de uma esperança vil e aguada. Colarinho e altas doses de boas palavras. Quem fala muito acaba se enganando da verdade.  Ou cultuando outra mentira. Aos pratos limpos, tapas na cara e orgulho ferido, pouco resta depois da noitada. Chorou em calçadas vagas, perdeu o equilíbrio e bambeou na contramão, desejou a morte pelo menos umas 1000 vezes desde então. Pra ela, pros seus, e pros que não prestam. Tratou de rumar sozinha, desatou pontes, construiu murada. Duas distâncias são melhores que uma proximidade míngua. Doses etílicas de descompaixão e indiferença. Quanta mesquinharia pra quem tinha tanto a dar. Talvez nunca tenha dado conta do que tinha, e por assim, perdeu sem nem saber que já possuía. Acordou ressequida pelo menos a cada manhã de domingo, sentindo o tempo esmagar seu peito ferido. Comprimiu tristezas em capsulas de alegria na gaveta do criado. Usou-as copiosamente. Abandonou tratamentos. Retomou velhos hábitos. Hoje, não se reconhece no espelho. Ainda está lá, mas de alguma forma, nada de certo ficou em sua vida além da dor de já ter sido.     

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