Eu não sei não, Zé, as coisas
andam muito erradas. Me diz como é que pode, heim, como pode o mundo ao meu
redor fazer tanta questão de me enganar?! Tanta coisa, Zé, tanta mentira,
tantas falsas palavras jogadas assim, me dói na alma só de lembrar. Ninguém
gosta tanto se não quer ficar junto. Ninguém é amigo se esconde a verdade. Nenhuma
mulher tem trinta amigas íntimas; você consegue no máximo duas, Zé, e se der
muita sorte. Ninguém sabe mais consolar, nem ajudar a passar por certos
traumas. Todo mundo age por interesse, até onde o outro pode surtir efeito em
sua vida, é até aí que a gente vai. Ninguém quer dividir preocupação na
madrugada. Nem sonho, Zé, veja só, cada um agora trata de sonhar sozinho e
fazer por onde realizar. Nem que pra isso precise passar a perna em um ou
outro. Que diferença faz, não é?! Se não for eu agora, vai ser outro lá na
frente, melhor que a rasteira venha de uma vez. E eu, Zé, tô errada em querer
desistir?! Acha mesmo que eu consigo passar por tudo isso sem que a cólera me
ataque a alma, acometa meu coração?! Você me conhece, Zé, não me acuse sem
prova, não maltrate se não quer receber o mesmo. Não folgue em cima de mim,
porque o 'chega pra lá' é forte. Melhor ser temida, Zé, Maquiavel que o diga.
Ser amada hoje é o mesmo que ganhar o título de 'idiota da vez'. Cada qual anda
ocupado o suficiente pra parar e te perguntar como foi o seu dia. E há coisas
maiores, melhores. Haja fé.
