sábado, 15 de setembro de 2012

Tributo.



       Foi assim que eu descobri, Zé, o tempo o vilão de toda história. Veja só, lembra a última vez que fomos ao parque? Era um dia ameno, nuvens no volume certo, a gente deitou na grama e guerreou com exércitos brancos. Fora uma tarde inteira, que não passou de poucos momentos, quem sabe uma mão cheia. Agora, lembra a noite passada, quando furtivamente chorei no seu ombro, enquanto nossos blues soavam e consolavam meu dia? Pareceu uma eternidade, nunca acabaria, e não passou de uma noite. Viu só, Zé, como o tempo é traiçoeiro?! Ele rouba o que nos faz bem pra descontar com atraso. Se pagamos um preço por estarmos vivos, o tempo é o tributo mais caro e pontual. Até na vida, Zé, ser inadimplente nos custa muito caro. Pergunte a qualquer ser pulsante o que mais se demora: a alegria de um dia, ou a tortura de uma noite triste? Zé, não é por acaso que as músicas nascem, a poesia, não é atoa que a morte chega. O tempo é cruel, cobra mais e oferece menos a cada dia. Cada solta melodia é fruto de uma dose de agonia. A gente não se aguenta, Zé, quer expulsar o intruso aos trancos e barrancos. Quer vencer no grito. Porque perder pra si mesmo é covardia de mais. Vai ganhar pra quem então!? E vem a vida fazer nossa cabeça, esse desejo cego de futuro nada mais é que ocupação pra vazio de alma. Pouca gente já se deu conta de que o melhor não é o que vem, mas o que já passou. Nascemos, Zé, e assinamos nossa própria sentença de morte. Daqui pra frente tudo é lucro, aquilo que passa é atrativamente mais significativo do que ainda está por vir. Veja se não tenho razão: o que lhe é mais confortável, lembrar-se do gosto doce no fim das tardes em frente à igreja ou cogitar como será seu aniversário de 40 anos? As especulações me massacram, Zé. Prefiro acomodar-me nos braços da certeza de que um dia já fui tudo isso que hoje eu sei não ser mais.