"Faca que não corta
Mulher semi-morta
Sem cara, sem fala, sem bala, sem hora, sem ala-á"
- Caso você case
- Caso você case
Foi mais uma daquelas noites mal
dormidas em que pedimos a Deus pro dia amanhecer. Ou terminar de uma vez.
Levantei, mas deixei a mim mesma, semimorta e desolada na cama, não vai fazer
muita diferença ir ou ficar em casa hoje. Esqueci-me no chuveiro pra ver se boa
parte se dissolvia e fluía pela encanação. Demorei pelo menos mais um minuto em
frente ao espelho e procurei dentre todos aqueles olhares vazios o resquício de
coragem e ânimo. Não encontrei. Vesti-me como se fosse aquela a última vez.
Arrastei-me pela cozinha, belisquei um último cookies e beberiquei o leite
morno. Saí. Estranhei o fato de ventar mais cá dentro, já que a meteorologia
prometia um dia ameno. Segui cabisbaixa e sorrateira, invisível em minha
vastidão. Escrevi, telefonei, assisti aulas vagas e matei tempo com blues
esquecidos na última play list. Liguei a tv antes de dormir pra ouvir algo além
do meu silêncio. Não fez sentido. Desliguei. Fui para a cama como se não
tivesse levantado. Fechei os olhos e pedi, como que em prece, como que em
confissão, uma noite de sono e uma vida pra amanhecer outro dia. Outra vez.
Toda a vida.
