terça-feira, 28 de agosto de 2012

Sem querer, a sua vida.



      Vertiginosamente ela adentrou a casa. Fez-se ausente por muitos meses. Cá me encontrou, acuada no canto esquerdo da sala, navegando em devaneios.  Foi como voltar ao tempo em que se ouvia a água correr na rua. Sentia-se o gosto de molhado no ar. Ela me tocou gentilmente a face, afagou os cabelos e enxugou as lágrimas que restavam da última ressaca. Me contou com toda a paciência que os dias poderiam deixar, pedindo desculpas pelo ar de impostora que deixara.  E foi aí que percebi o quanto eu também me traíra nos últimos dias. Foi assim que troquei as horas vazias esperando aquilo que nunca viria e me ocupei dos livros na prateleira. Das fotos arquivadas, tratei de queimar as cartas, as arras e amarras que o passado insiste em implantar em meio à saudade. A gente deve sentir muito pouco ou quase nenhuma falta. Mudou-se pra cá. Nessa última semana passamos as tardes ao som daquele blues, de conversas carregadas e contos de meretriz. Parecíamos grandes velhos amigos depois de uma vida passada. A gente se separou, mas encontrou o caminho de volta a tempo.  A gente se encontrou antes de perder de vez o prumo. Porque não soubemos o certo e o errado na vida, então resolvemos arriscar. Arriscamos e perdemos. Faz parte. Reencontramo-nos da forma mais esquecida e inesperada. Que a amargura da vida não impeça de seguirmos a nossa doçura. Que a pouca consciência se mantenha quase sempre pura. Ah, alma poética, ainda que a gente se perca, estaremos sempre prontas pra mais uma. 

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