Vertiginosamente ela adentrou a casa.
Fez-se ausente por muitos meses. Cá me encontrou, acuada no canto esquerdo da
sala, navegando em devaneios. Foi como
voltar ao tempo em que se ouvia a água correr na rua. Sentia-se o gosto de
molhado no ar. Ela me tocou gentilmente a face, afagou os cabelos e enxugou as
lágrimas que restavam da última ressaca. Me contou com toda a paciência que os
dias poderiam deixar, pedindo desculpas pelo ar de impostora que deixara. E foi aí que percebi o quanto eu também me traíra
nos últimos dias. Foi assim que troquei as horas vazias esperando aquilo que
nunca viria e me ocupei dos livros na prateleira. Das fotos arquivadas, tratei
de queimar as cartas, as arras e amarras que o passado insiste em implantar em
meio à saudade. A gente deve sentir muito pouco ou quase nenhuma falta.
Mudou-se pra cá. Nessa última semana passamos as tardes ao som daquele blues,
de conversas carregadas e contos de meretriz. Parecíamos grandes velhos amigos
depois de uma vida passada. A gente se separou, mas encontrou o caminho de
volta a tempo. A gente se encontrou
antes de perder de vez o prumo. Porque não soubemos o certo e o errado na vida,
então resolvemos arriscar. Arriscamos e perdemos. Faz parte. Reencontramo-nos
da forma mais esquecida e inesperada. Que a amargura da vida não impeça de
seguirmos a nossa doçura. Que a pouca consciência se mantenha quase sempre
pura. Ah, alma poética, ainda que a gente se perca, estaremos sempre prontas
pra mais uma.

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