Há
dias em que eu só peço que a angústia que me corrói seja um dia recompensada.
Que as matizes e martírios de uma vida não embacem a obra prima no fim da aula.
Que as respostas estejam ao alcance, mesmo quando não se mostrem certas. E que
as dúvidas amortizem o impacto que a constatação da verdade possa provocar. Que
a gente não complique mais ainda aquilo que já chegou pra dar trabalho. Porque
é preciso simplicidade pra carregar os dias. Mas que se peque por excesso, e
não por falta. Que os erros não se repitam, ou que perpassem de forma diversa,
e que a gente não se iluda com o que poderia ter sido. Que o medo que me povoa
e a incerteza que me apavora tornem-se ao menos suportável, e que a saudade
guarde abrigo, e não me abrase todas as tardes. Que a vontade de desistir e
largar tudo se transforme naquilo que mais almejo. Que haja fé e haja força pra
levar a vida. E antes de querer, que se busque encontrar. Que ninguém se iluda
do que fez, porque cuidar de si exige destreza, sentido e clareza. E que a gente
encare, se quisermos mesmo mudar. Que nunca nos contentemos com o simples fato
de que só viver, em si, já dá muito trabalho.
"Mais esperanças nos meus passos do que tristeza nos meus ombros." (Cora Coralina)

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