Acredito que, ao menos uma vez na
vida, um anjo bate à sua porta. Não, ele não vai vir como dizem as Escrituras,
numa nuvem iluminada, num cavalo de fogo ou coisa parecida. Ele nos chega da
forma mais sutil e imperceptível possível. E muito provavelmente só nos daremos
conta de sua presença quando ele partir. Ou se ausentar por um grande espaço de
tempo. Esses anjos não têm uma forma definida ou um padrão a ser seguido. Às
vezes bonitos, exóticos, arredios ou desconfiados, usam disfarces perfeitos. É,
Deus não falharia em algo tão imprescindível para o homem. E, ainda que o tempo
passe e a vida nos modifique, sempre que nos encontrarmos teremos assunto
suficiente, cumplicidade e parceria necessária para não deixar que as intempéries
nos atropelem. Mas não gritaremos aos quatro ventos. As coisas mais bonitas e
mais simples da vida não precisam ser vistas, nem ditas. Basta que sejam sentidas
com toda intensidade que nos é permitida. Eu tenho dois. Pra ser mais exata,
dois querubins. Recebi-os em momentos que a vida pedia demais de mim,
percebi-os arredios e desconfiados. Dificilmente outro tipo me chamaria
atenção. Mais ainda, muito pouco ou quase nada provável um outro conseguiria se
aproximar. Tenho vinte e poucos anos, e dois arcanjos. E o mais engraçado de
tudo é que nós nunca saberemos quando seremos o anjo de alguém.

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