Ah não, Zé, não me diga que
exagerei na dose quando digo que isso estragou a minha vida. Destruiu quem eu
era. Você sabe bem, você me conhece, nem nas hipóteses mais remotas eu me
imaginaria de tal forma. Mas não mentiu quem disse que o lugar transforma a
pessoa. E quem está ao seu redor também. Foi culpa de cada erro cometido com
ânsia em acertar. Cada novo ponto de vista pra aceitar certos fatos, entender
que a vida nem sempre é como a gente pensa ou quer. Cada renúncia cega na
inútil certeza de conseguir, Zé. Mas eu não consegui nada, nem uma vírgula de
tudo aquilo, só um amontoado de frustrações colecionáveis que sufoca o peito e
a alma. E ainda me dizem que eu “tenho que mudar o meu jeito”. Tá vendo Zé,
quando eu digo que não importa o que você faça ou quem você seja, no fim das
contas as pessoas veem o que querem e impõem como podem seu ponto de vista,
você me diz que exagero nas coisas. Pra mim pouco importa agora, meia dúzia de
palavras bonitas e um pedido de desculpas não resolvem nada.

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