Não discute não, Zé, que se
conselho fosse bom, não se dava, se vendia. Disso todo mundo sabe. O que não se
dão conta é que é fácil por demais apontar o caminho torto do outro, julgar sem
medida e bravejar que cada um tem aquilo que merece. Tem muita coisa nessa vida
que a gente não precisa, Zé, é o que mais tem. Mas nem por isso somos poupados.
E aí, me diz, a gente faz o que?! Morro cada dia com a certeza de que ainda
posso sobreviver, mas não quero não, Zé, cansei, não quero mais isso de viver
morrendo e, sendo assim, não viver. Lamento ao perceber que de todas as
oportunidades que tive, escolhi a pior. E é esse o mal de uma escolha errada,
você não é poupado das consequências. Nem pode voltar de onde partiu. Me diz
Zé, é certo?! Quer dizer, foi só uma vez, a única, e vai mudar todo resto da
história. Quisera eu voltar no tempo e consertar meus erros, mas não passa de
um clichê desconfortável, você sabe bem, não é?! Eu tento fazer com que isso
não pareça tão mal assim, mas as coisas não estão lá ao ponto de trazer um
sorriso à tona, não mesmo. Nem lágrimas, Zé, o que me preocupa é isso, não traz
mais nada. Simplesmente estagnou em um ponto no qual não sei me equilibrar, nem
avanço, nem recuo. Fico em cima do muro a mercê de qualquer intempérie que ameace
o dia. Então, é justo Zé?! Quer dizer, você passa a vida toda construindo sonhos
sem saber que podem se tornar seu maior pesadelo. E é por essa razão que eu
prefiro ficar dormindo que acordar e viver minha inútil realidade.

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