“Se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava, de olhos abertos lhe direi: amigo, eu me desesperava.” (Belchior)
A vida, de fato, é muito avarenta. Fadamos dias, semanas, meses e anos, sentindo nada. Mas, uma vez que nos levantamos e abrimos a porta, uma verdadeira avalanche invade nosso vazio. Na maior parte do tempo não temos nada e, no momento seguinte, temos mais do que conseguimos lidar. E, mais do que isso, a vida é egoísta, nela, ou estamos sofrendo, ou fazendo alguém sofrer, ou assistindo o sofrimento alheio. É incontrolável, coisa da natureza humana, como me disse o poeta. Pior de tudo, a vida é dor. O que move o mundo não é aquilo que lhe agrada, mas a renúncia daquilo que se fez importante. O homem reclama da dor, porque ela assusta, atormenta, nos mostra nossa verdadeira face. Disfarça-se de abandono, covardia e fraqueza. E por mais que a rejeitemos, sempre encontra um modo de se acomodar, de se enamorar, porque faz parte da vida. O pecado maior é querermos compartilhar o que nos fez mal. Não sabemos guardar, não sabemos curar dor, e, por assim dizer, doemos mais, vivemos mal ou não vivemos. Por medo, fraqueza ou covardia. Queremos partilhar tudo e, por assim ser, possuir o outro, queremos prender o que nunca tivemos, por medo de perder o que apenas desejamos. O que nos dói é se afastar, é perder sem lutar, é crescer e morrer em si, precoce, imaturo. Sentir a gente sente à distância, mais perto do coração e do que realmente somos. Em silêncio, em disfarce de sorrisos e expressões comuns. Palavras machucam quando são ditas, e apenas maltratam quando caladas. Mais a si que a qualquer outro. E talvez o mais difícil disso tudo seja mesmo aceitar a vida, com avareza, egoísmo e dor, em silêncio. Pra um mundo surdo, seu grito é a coisa mais ilógica em que se sustentar.

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