Será que eu vejo apenas o que ninguém mais vê? E por assim dizer, vejo o que de fato não existe?! Constatei isso assim que cheguei em casa. Hoje a personagem pesou demais sobre os ombros, quase despencou e mudou o rumo do espetáculo. Mas como artista que é, não quis ver os colegas de palco aflitos, o diretor aturdido, e se manteve de pé, nutrindo de furtas esperanças as forças que nunca tivera. Até quando mais?! A temporada de verão passou tão rápido, porque essa de outono teve de durar tanto?! Será que não dá pra haver uma troca de papéis?! Uma substituição, por favor, eu não sou tão boa assim, é tão corriqueiro me substituir. Falo sério, não quero mais o papel coadjuvante da estrela, dê-me só um pouco de paz e leveza, que eu me contento em ficar nos bastidores. Eu abro e fecho as cortinas, qualquer coisa, menos continuar assim. Ou peço férias, tantas quantas puderem ser adiadas. Deixe-me ver além disso, deixem-me passar por isso sem necessariamente passar aqui. Deixa eu fazer passado, deixa eu viver presente e acreditar em futuro. Deixa eu te dar um bom motivo pra isso tudo acabar, deixa o outono passar, que é preciso chuva pra poder brotar, que é preciso novo pra querer mudar. Chega de torrenciais e ventos sopranos, traz-me algo mais sereno, garoado, que o fardo anda pesado, que o mar tá agitado e meu abrigo já está gastoo, abalado e desmontado. Traz-me algo que eu possa ver, já que sentir por demais tem me desbotado.
'A realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e melancolia.'

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