Não sei descrever alegria. Toda vez que me encontro assim, apática, não me saem mais de duas ou três passagens bem feitas. Mas vai ver poesia é feita de desânimo mesmo. “Tristeza não tem fim, felicidade sim”, já dizia a bossa. Quando tenho a certeza de que já tive o bastante nessa vida, quando remorso se acumula como velho amigo, quando não vejo saída, é aí que os monstrinhos saem pra brincar. É aí que cada demônio toma parte de seu pedaço e separa algumas coisas para mim. É quando deságuo, torno-me verbo e sintaxe, literatura de tarde fria e sombria. Escuridão anterior de amanhecer. Como quem não consegue deixar passado pra trás, nunca vejo saída, e por isso mesmo estou sempre carregando esse peso nas costas. Não vejo nada demais quando tudo está assim errado. Pra dilatar a alma é preciso concentração. Só duas coisas são capazes de apaziguar tristeza e franzir solidão: um toque com ternura ou a melodia da canção. Mas pra sentir, ah, sentir a gente só sente com palavras. Do doce abraço ao murro na cara. Palavras podem abrir caminhos e desmoronar estradas. Muita gente não fala por medo de errar, e acaba errando calado. Silêncio costuma sempre machucar. E ainda que eu não fale a alguém, falo a mim mesma, ao desconhecido do outro lado da tela, e até ao conhecido desavisado. Costumo deixar a par de toda situação, da confusão cá dentro. Por fim, constato que vai ser sempre assim pra mim, vai ficando complicado e diferente ao mesmo tempo, me deixado cansada e descrente, porque eu bato e grito, e ninguém atende. Fiquei sentindo frio desde o verão passado, tem vazio por demais e palavras já me são inúteis pelo que tenho vivido. Ou deixado de viver, pra ser mais sincera. E talvez por isso mesmo a poesia me sirva, me furta a rotina escassa, desacelera meu metabolismo ansioso, resgata-me do inferno vivo e sem encantamento. Filtro assim a poluição. Não aquela ambiental, visual ou sociológica. Eu purifico a sujeirada que o sentimento acabou por deixar aqui.

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