sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Não quero mais do que é meu no mundo.


         Zé, eu não sei o que me domina. Eu tento, bato, passo por cima e vou embora. Mas tudo volta, sempre volta, não tem jeito, não importa o que eu faça, não importa a direção. Tudo me é reconduzido. Estaca zero, ando em círculos, volto ao mesmo lugar. Ah, Zé, sabe ontem?! Ontem chorei, me derramei em lágrimas de raiva e rancor. Não, Zé, não molhei o travesseiro ou o ombro de quem quer que seja. Chorei por dentro, solucei cá dentro, pra não ser incomodada, nem irritar a vizinhança. Estourei mais um limite da minha inútil paciência com essa história mal vivida, que cisma em fazer reprise dentro de mim. Tem realmente me preocupado tudo isso, porque cada canto mal acabado da minha vida está infectado com seus vestígios. Na luz que a lua derrama na janela, na canção soletrada por uma voz alheia. Até nas entrelinhas, Zé, na minha fuga perfeita dessa situação ridícula, encontrei esse conto avesso fazendo morada. Agora me diz o que eu faço então?! Você sabe mais do que qualquer outra pessoa o quanto tenho tentado vividamente transpassar o que já passou. E passa, Zé?! Passa não, faz que passa, quase vai, mas sempre volta. Me acorda vez em quando em meio ao sono intranquilo de uma noite quente qualquer. Trata de inundar, assim, sem mais nem menos, meu pensamento vago e perdido, e parece que se perde mais ainda. Zé, eu ando bem, bem mal ultimamente. Ando com essa vontade de apenas parar, baixar a cabeça e aceitar o fracasso maldito em que tudo isso se tornou. Pra ser mais sincera, em que me tornou. É Zé, ontem, furtivamente e em seguida, eu quis desistir. Terminar o que de fato teve um péssimo começo. Mas eu não poderia reviver vinte anos, não é? Não, Zé, nem mesmo o último eu conseguiria reviver. Me diz, então, qual meu delito?! Qual a contravenção tão assim hedionda que fundamentou minha condenação perpétua?! Eu sei Zé, você vai dizer que é exagero, que vejo além das coisas e sinto além das pessoas. É isso, é essa a pena que recebo, sentimento imódico?! Ser além do que se pode, só porque sou errada pro ‘mundo certo’ dos outros??! Ah não Zé, prefiro então a redenção. Diga-me o que fazer pra conseguir esse perdão. Prometo não remar contra a maré, prometo ser infiel e dissimulada, se é que assim consigo viver. Pois sobreviver já me deu muito trabalho. Facilita meu caminho, vai?! Não vem com essa de que a vida é questão de fé. É covardia amontoada nas esquinas do destino. Eu sofro assim porque minha fraqueza caminha, perambula nas avenidas e, sendo assim, não se acomoda, nem se acostuma, é convulsiva e incômoda por natureza. E aí, Zé, o que a gente faz? Me diz como resolver meus mal-entendidos?! Anda Zé, que eu tô cansada. E talvez por que eu também já saiba o que você não vai dizer. A culpa é dessa ideia falida que eu tenho de vida. Dessa mania de exigir o necessário, e não o que me é ofertado. Mas tem uma coisa Zé, algo que você não sabe. Todas as noites eu peço perdão a Deus pela ingratidão da minha parte. É só que pra mim, a vida é preto no branco. É sofrimento puro. Por isso eu choro, Zé, por isso eu me queixo tanto. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário