domingo, 29 de janeiro de 2012

Licença poética.


        Pare e deixe-me corrigir o que o tempo tratou de atrasar na minha vida. Essa ânsia de Deus sabe o quê consumiu meu sorriso, olhos brilhantes e vontade de viver. Alguém, por gentileza, pode devolver meus pedaços?! Minha loucura racional, meu exagero contido e minha alegria triste, devolvam-me, são meus, são tudo o que tenho e tudo o que sou. Sem isso, só me restam lágrimas secas, evaporadas pelo clima estacional que incomoda minha alma. Só fica esse silêncio ensurdecedor que sufoca meu ânimo de ser pensante. Penso demais, e por assim viver, não vivo, temendo não saber o que de certo me aguarda, receando ser alguém cuja áurea foi roubada, se instalou em ser vazio por abrigo e compaixão. Há como ser viúva sem amar, por assim dizer, de amor morto que vive dentro da gente?! Até quando a faca fere, a fé incomoda e ser fiel é tão vagabundamente inútil quando não há inquietação?! Essa eternidade oca dentro do peito faz estrago secular. Estrangula versos velhos, empoeirados de solidão. Ah passado, é bom porque não volta, a não ser que você queira. O meu, avesso amigo, insistiu em fazer morada, fica assim estacionado, parado diante da porta, nem dá lugar ao presente, nem dá passagem ao destino. Tornou-se assim arcaico, o mesmo lugar de antes, a mesma hora de sempre. Empoeirado, eu tento, exaustivamente limpar aos poucos e com cuidado a sujeira acumulada, de tantos anos e jornadas, inútil e encrostada nas paredes da biografia escrita ao contrário, tragédia de grego, de fim sem começo, capenga de riso. É o preço, meu amigo, que se paga por insistir em estar vivo.

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