Às vezes eu me via mendigando as coisas. Até que percebi que mendigar era o que eu menos precisava fazer. Não minto mais, não escondo saudade ou qualquer coisa que eu sinto. Sinto só, saudade que me abala vez em quando, mas que faço questão de afastar, porque já chega de ocupação vazia, embora eu acredite que não ter do que sentir falta é ainda mais infeliz. Leio, releio vidas e linhas, histórias esquecidas na prateleira de alguém que movimentam a minha tal qual seu enredo. Escrevo, pra seguir, e talvez conseguir, resgatar a minha vida esquecida nos cantos do quarto ou da sala de estar. Talvez lá fora também, a bagunça de dentro resolveu se externar, teimou em se instalar, e tá difícil fazê-la ir embora. Esvaziei-me de perguntas, embora saber as respostas não tenha mudado muita coisa. Podem até ter trazido certezas, por certo que a gente erra sem intenção. A gente até machuca com um intuito, mas não escolhe errado pelo simples propósito de querer sofrer. Então, quando tudo mais se passa assim, meio em câmera lenta, embora você necessite de poção mágica pra mudar, espera que o tempo, é, olha ele, maltrapilho e folgado, cuide de acomodar todo esse amontoado que se chama passado, arquivo morto, desenterrado vez ou outra. Parei de ligar, de me importar, e assim ocupar meu tempo com o que necessariamente não preciso. Passo a maior parte dele ouvindo música, confabulando histórias e tentado crer na inútil ideia de que viver é preciso. Ainda que eu faça uma lista dos amigos perdidos, dos sonhos esquecidos, das mentiras condenadas...tudo inútil. Uma lista não muda nada, quem muda é você, por vontade própria ou motivo alheio. Muda, porque não aguenta a realidade assim tão ilusória. Ainda tenho preferências, ouço meus blues dos anos setenta, falo pouco pra não ter do que me arrepender e acredito estar caminhando pra algo um tanto menos caótico que o presente momento. Prefiro o sol da minha janela às 6:45 da manhã. Doce de leite e nuvens cinzentas, numa tarde que fazia 33°C. Porque a vida nem sempre é o que a gente acha que ela deveria ser, e a nós só é ofertado o tempo suficiente, embora todos esperem que exista o ‘pra sempre’.

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