segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Nas águas que há em mim.


Como a vida tem sido boba, Zé. Pouca também. Às vezes tenho a impressão de que não vai dar tempo. De quê? Ser feliz, viver um amor, mudar de profissão, ter um filho, escrever um livro... Tanta coisa, ainda, Zé, você me entende?! 
Ao mesmo tempo, ainda tem tanto mal estar com o que já passou. É como um remanso dentro do rio que sou. Leva tudo ao meu redor, sem chance de defesa. Leva pro fundo e por lá se perde, até que a correnteza dos dias se encarrega de trazer tudo à tona outra vez.  
Pouca gente consegue me ver além da superfície. Talvez poque a profundidade cause espanto. Talvez também por que não guarde nenhum encanto. Nem sei, Zé. Quero entender por que algumas dores se demoram mais. Criam raízes, se firmam e se alongam.  
Viver os últimos dias foi difícil, Zé. Ser perene nessa vida de escassez não me deixa cumprir os dias como eu deveria fazer. Algumas trilhas são difíceis de encarar. Seria mesmo preciso cruzar aquele caminho? Seria oportuna a visita sem o propósito de fazer o bem? Não consigo entender, Zé. Não sei se existe alguém no mundo que assim possa fazer. 
Dei o braço a torcer, tudo em busca de paz. Mas tá aí, cadê ela? Me vejo mergulhada em angústia. Um sobe e desce de emoções. Estou me afogando, Zé, nesse mar de ser o rio que já não sou mais.   

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