Então, eu poderia
nem escrever esse texto. E sei que não devo, mas como quero, assim vou fazer,
sem muito medir os caminhos que ele irá percorrer. Eu queria falar do coração
que, assim como os tendões, pode ser partido. E que a dor pode ser a mesma em
ambos os casos. Nunca rompi um tendão para saber, mas, da outra dor, conheço
até os adendos.
Não gosto de
mensurar as virtudes e amarguras da vida em números, dias, meses ou anos. Mas
gosto de ver a vida passar. Se distanciar. Talvez porque assim o campo de visão
se amplie e, aquilo que não era visto, nem sentido, acaba por ser descoberto.
Eu lamentei
muito escolhas feitas num tempo em que eu acreditava pensar demais. Bobagem, a
gente nunca pensa o tempo necessário para as decisões certas. E sim, as
melhores coisas da vida chegam de surpresa, de supetão, sem cobrar pedágio.
Assim como as piores.
E, assim como
chegam, elas também se vão. Sem pedir licença ou permissão. Não que seja
necessário, mas é recomendável na maior parte das vezes. Vão com nossas
certezas, suscitando novas dúvidas que nos acompanham até que novas respostas
cheguem. E partam.
Não gosto de
olhar para trás e talvez, por isso mesmo, eu ainda esteja tão presa ao que
passou. Eu sei, cá dentro, que não é saudade, nem de longe. Superei esse
obstáculo faz muito tempo. É insatisfação. Não aceitação do final desenhado pelo
autor da trama. E por não aceitar, tento reformular a história, mesmo sabendo
ser inútil.
Por isso eu
decidi hoje desistir de um final. Quem diria, logo eu, tão fascinada por
início, meio e fim. Abdico do meu direito de findar e, por fim, cedo à vontade
do destino. Diferente das outras vezes, não desejo surpresa do futuro. Aceito o
passado com as certezas que o presente pôs sobre a mesa.
E se me
perguntarem o porquê de tal conclusão, faço uso de uma premissa que tem me
acompanhado nos últimos tempos. Aceito o que passou porque não tenho certeza ou
segurança alguma sobre aquilo que ainda quero e desejo. Mas me abrigo na
precisão de tudo aquilo que já não quero mais. E não, não quero ser fantasma na
vida de ninguém.

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