quarta-feira, 2 de julho de 2014

Meteorologia.




    Céu nublado. Acusa a moça do tempo do jornal matinal. Mas isso não me incomoda nenhum pouco, Zé. Cá dentro tem chovido torrencialmente nos últimos dias. Não que isso fuja das proporções normais da vida. Você me conhece, só peco por excesso. Ainda que eu tenha tudo, e olha que eu tenho tido muito, Zé, ainda sinto que me falta algo. Falta mais eu, mais livros nas prateleiras, mas azul na sala de estar e almofadas indianas sobre a cama. Falta gosto por café quente pela manhã, porque eu sempre preferi um copo de leite morno com achocolatado. Falta música ressoando pelas paredes do apartamento e da alma. Me falta calma enquanto comprimo a pressa de viver. Ah Zé, ao menos agora, diante de todos os grand finale pelos que passei, a mim deveria ser permitido fazer o que bem quisesse, nem que fosse uma vez só. O que é que custa? Tenho as minhas economias, economizei na entrega por não sentir a necessidade de ser eu mesma nos últimos anos. Então, Zé, eu só queria acordar. Deixa ao menos fazer o café, arrumar a cama, ler o jornal. Nem te cobro um beijo de bom dia. Ultimamente tem me fatigado a presença das pessoas. Quero mais paredes, Zé. Quero uma caixa pra me guardar. Tenho necessitado furtivamente da minha companhia. As pessoas têm me sufocado. Têm comprimido meus dias com seus egocentrismos e urgências vazias. Têm me incomodado significativamente com suas exigências ausentes de respaldo. Têm sucumbindo em mim a vontade de te ver, veja só, estão matando você em mim todas as vezes que gritam mais alto que meus fones. Estão roubando minhas horas de sono. Querem acabar comigo, Zé, e eu nem sei por onde tudo isso começou. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário