Céu nublado. Acusa a
moça do tempo do jornal matinal. Mas isso não me incomoda nenhum pouco, Zé. Cá
dentro tem chovido torrencialmente nos últimos dias. Não que isso fuja das
proporções normais da vida. Você me conhece, só peco por excesso. Ainda que eu
tenha tudo, e olha que eu tenho tido muito, Zé, ainda sinto que me falta algo.
Falta mais eu, mais livros nas prateleiras, mas azul na sala de estar e
almofadas indianas sobre a cama. Falta gosto por café quente pela manhã, porque
eu sempre preferi um copo de leite morno com achocolatado. Falta música
ressoando pelas paredes do apartamento e da alma. Me falta calma enquanto comprimo
a pressa de viver. Ah Zé, ao menos agora, diante de todos os grand finale pelos
que passei, a mim deveria ser permitido fazer o que bem quisesse, nem que fosse
uma vez só. O que é que custa? Tenho as minhas economias, economizei na entrega
por não sentir a necessidade de ser eu mesma nos últimos anos. Então, Zé, eu só
queria acordar. Deixa ao menos fazer o café, arrumar a cama, ler o jornal. Nem
te cobro um beijo de bom dia. Ultimamente tem me fatigado a presença das
pessoas. Quero mais paredes, Zé. Quero uma caixa pra me guardar. Tenho
necessitado furtivamente da minha companhia. As pessoas têm me sufocado. Têm
comprimido meus dias com seus egocentrismos e urgências vazias. Têm me
incomodado significativamente com suas exigências ausentes de respaldo. Têm
sucumbindo em mim a vontade de te ver, veja só, estão matando você em mim todas
as vezes que gritam mais alto que meus fones. Estão roubando minhas horas de
sono. Querem acabar comigo, Zé, e eu nem sei por onde tudo isso começou.

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