Oi Zé, faz tempo que não apareço, eu sei, não precisa brigar comigo. Sei que os dias estão mais leves e que algumas mudanças estão na iminência de acontecer. Sei também que o sono não anda regular, pois a consciência insiste em trazer à tona as pausas que a vida nos exige.
Sento-me nessa tarde sem maiores preocupações, pra te dizer do que tenho sentido. Vivido não, Deus sabe do quanto uma pausa era necessária. A escrivaninha está repleta de novas companhias, e você se orgulharia de ver a calmaria que vez ou outra acampa em minha mente. A pressa não, Zé, essa já fez morada, mas seus cochilos são maiores ao longo do dia. É à noite que tudo me falta, ou me toma de volta.
Ainda não sei, não sei se de fato desistirei da trajetória dos últimos cinco anos. Só hoje posso ver o quanto ela foi vazia. Como eu pude suportá-la, hein Zé?! Já sei, vai dizer que nada é tão desesperador assim se olharmos outra vez.
Custo a me encontrar nas entrelinhas de mim mesma, nesse caminho tão cheio de gente vazia ao qual me obriguei a cruzar. Chego à conclusão de que arrumei as malas e parti, deixei esse corpo que hoje controla nossos sentidos e diálogos. Ah, Zé, eu só queria ser eu mesma, mas aí, dá muito trabalho voltar e fazer de novo. E quem me garante que vai dar certo dessa vez?
Então me consolo com a fútil ideia de que outro jeito não há e vai ser assim mesmo. Vamos por o plano mais óbvio em prática. Cheguei à conclusão de que, quanto mais se quer, menos se sabe aonde chegar. Hoje te digo, mal sei pra onde vou, e muito menos me interessa o lugar a se chegar.
Zé, amanhã começa o mundial, tô em casa - em férias forçadas -, com viagem marcada, outra crise renal, sem dinheiro na bolsa e cada dia mais cega – a miopia resolveu por bem se instalar e, veja só, ocupando bastante espaço. Tem também os resquícios de uma virose e a queda de cabelo, mas esta última nem me aflige mais, estamos nos adaptando a nós. No mais, a família vai bem. O cachorro feliz como sé ele sabe ser.
Eu sei, e hoje estou sabendo demais, você vai me dizer pra não tratar de me acomodar, que a vida não se resume a isso e que não me reconhece frente às palavras que acabo de escrever. E da mesma forma lhe digo que o comodismo de mim corre longe, mas não posso abrir mão de ver meu passado se afastar, nem a chance de explicar à minha avó o que significa Copa do Mundo. Também, quero experimentar novas línguas, como a que me embala agora, tão rica em suas travas e entraves, quero uma melodia nova pra cada dia da semana e uma companhia pras festas do mês.
É Zé, meu mês de predileção já começou e o que mais me preocupa agora não é a copa, nem a corrupção, nem as manifestações, nem essa ideia de hoje ser comum matar uma pessoa a pauladas, muito menos o fato de o telejornal só trazer más notícias e das pessoas não saberem empregar o infinitivo dos verbos – e olha que se me incomoda bastante.
Me preocupa hoje não encontrar alguém pra compartilhar o fone de ouvido e as canções já cantadas que me são recentes. Não ter pra quem ligar numa noite de insônia em que minha cabeça insiste em me machucar pelas escolhas erradas. Me preocupa a falta de companhia, não a de pessoas, quase sempre sou sufocada por elas. Eu sei, Zé, é egoísta frente ao mundo, mas e daí, ao longo do tempo me ensinaram também a não sentir culpa em ser prioridade de si mesmo sempre que possível.
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