Eu não, Zé, não acho justo abrir os olhos toda manhã e me deparar com isso. As pessoas perdem seus dias com a novela sensacionalista, aclamando assassinos e perseguindo terroristas. Compartilham sua rotina a cada fração de segundo, como se gritassem pra o mundo inteiro saber de sua existência. Travam discussões vazias, sem nenhum cunho construtivo, só pra fazer as vezes de “social comprometido”. Censuram os políticos, a mídia, a legislação capenga. Querem mudar o país, o mundo, se possível for. Criam grupos e mais grupos, tribos, gente da sua gente, ditando um estilo de vida, um modo de interpretação. Querem ser ouvidos, querem acabar com a corrupção, querem ensino de qualidade gratuito, querem igualdade nas vagas da universidade e nos concursos, querem um salário de vergonha e horas de trabalho justas. Querem água encanada, saneamento básico, rodovias em bom estado, transporte público, segurança nas ruas. Querem meio ambiente sustentável, a cura pra todo o mal que houver no mundo. E fama, dinheiro, sucesso, querem salvar a pátria e postar uma foto na rede pra “comprovar” o feito. Mas não são capazes de respeitar a regra do silêncio no condomínio em que moram. Nem a sinalização de trânsito. Nem escrever o que pensam com as próprias palavras. Esquecem a tv ligada, a torneira pingando, não usam a coleta seletiva, porque falta tempo pra isso. Querem tudo melhor, mas não sabem nem como melhorar. Me diz se é mesmo certo acordar pra isso? Quer dizer, eu também quero tudo melhor, mas falar por falar, Zé, não vai mudar em nada. E eu não sei dizer por que as pessoas só se ocupam disso.
