Quando o dia não cabe mais em
mim, e a ressaca da semana me derruba na manhã de domingo, prefiro fechar os
olhos e cantar feito prece. Sem pressa, repito insistentemente ao meu coração,
ou seria cabeça, tudo é questão de paciência, de saber levar as coisas até o
fim. Não se pode fazer muito quando a situação nos foge do controle. Mas não
podemos descarrilhar, não podemos simplesmente entregar os pontos. Há mais
felicidade naquilo que perdemos do que conseguimos enxergar. Pensar que a vida
tem tudo encaminhado nos leva à simples conclusão de que o sofrimento de hoje é
motivo da alegria de amanhã. As pessoas não vão entender, não é lógico e compreensível.
Ainda mais quando se tem dor. A dor nada mais é que o medo, medo por não saber
o que vai ser. Por não sabermos esperar; entramos em pânico ao percebermos que
falta aquele pedaço que outrora se fez tão completo. Mas estamos completamente
despedaçados em nós mesmos. Nos outros. Em tudo o que trazemos e deixamos. Parece
que o peso dos anos nos aprisiona ao presente, sem que nos demos conta de que
amanhã não vai ser assim. Ontem eu pensava em quatro filhos e uma carreira na
área de saúde. Amanhã concluo meu bacharelado jurídico maltrapilho. Um filho,
quem sabe, nada muito ousado. Não, ninguém me falou quantos viriam e partiriam.
Nem eu sabia da existência louca e febril cá dentro. Fui mais do que meus olhos
puderam ver. E menos do que acreditava ter sido para alguém. Ainda encontro conforto
nos lugares antigos. Hoje me incomodam os espaços de sempre (sempre agora,
presentes). Descanso a cabeça e me deixo arrebatar pelo sonho de criança, ou
cansaço de gente grande, tento furtivamente não prender meu destino aos deslizes.
Nem às pessoas erradas. Tento caminhar, não sem olhar pra trás, mas guiada pela
certeza de assim melhorar as coisas. O que perdemos não faz falta se o futuro
recompensa. E essa é minha prece de todos os domingos: um futuro que cure a falta
que o passado deixou.

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